SINTO-ME CONVICTO…

Quarta-feira, 01 de abril de 2020. Vejam que primeiro de abril estou vivenciando… No Dia Internacional da Mentira, ocorre um óbito dentre os moradores desta nossa respeitável instituição, o Lar de Idosos Recanto Tarumã.

Por se tratar de alguém com 88 anos de existência, chegados  ao  término no ápice de uma crise endêmica houve pessoas – moradores falsos idosos mal resolvidos e inseguros – que chegaram a alardear uma tremenda, maldosa e repulsiva inverdade.

Não, NÃO OUVE A OCORRÊNCIA DE UM PRIMEIRO CASO DE ÓBITO POR CONTA DO COVID 19, AQUI NA CASA. Eu mesmo busquei me certificar com a autoridade maior, o gerontólogo, nosso supervisor técnico aqui no Lar… Portanto, gente não façamos do nosso Odamir, um estandarte de destaque pra nos colocar no olho do furacão da impopularidade.

Falando agora do amigo, capturei de uma crônica minha publicada em janeiro de 2018 – há três anos – com o título “UM SER IDOSO”:

odamiriiO jovem da foto acima é nada menos que o Senhor Odamir Bartholomeu, nascido em 10/07/1932. O cara já faturou 85 primaveras e, desde que cheguei no Lar em 2009, eu o assisto tranquilamente servindo as nossas mesas nesse, mesmo refeitório, pelo café da manhã, almoço ou jantar. Para mim ele, Odamir é uma digna representação de …

UM SER IDOSO

Pois é, em outra publicação de maio de 2017, com o nome de VELHOS GURIS, andei escrevendo à respeito do agora falecido:

Eternos Velhos Guris_20200401_0001Para quem pensa que a vida em um lar de idosos é monótona e se resume a esperar o tempo passar, ledo engano. O Lar dos Idosos Recanto do Tarumã traz aos seus moradores novas oportunidades.   Uma experiência que tem animado a turma do Lar é um projeto musical desenvolvido pela musico terapeuta Claudimara Zanchetta que foi além e criou um novo ritmo para o Recanto. — Em 2004, o grupo de samba inicialmente composto por quatro integrantes gravou seu primeiro CD.  — Em 2011 lançou seu segundo álbum graças a um prêmio de R$ 20 mil recebido em uma das apresentações do grupo que, além de shows, já participou de programas de TV.

Seu Odamir Bartholomeu, 80 anos, é vocalista e também idealizador do grupo. Conta que, aos oitos anos, sem dinheiro para comprar o ingresso das apresentações, pediu para trabalhar no Circo Belarmino & Gabriela, onde começou vendendo balas. Quando a trupe foi embora do bairro Portão, pediu para ir junto e a mãe permitiu.  Em suas próprias palavras, nunca mais largou a vida artística. Aos 18 anos prestou o serviço militar, fez curso de eletrônica por correspondência, mas a boemia falou mais alto. Ficou conhecido como Tuca do Pandeiro, fazia bicos como técnico eletrônico consertando os equipamentos das bandas. O samba sempre foi a sua cachaça.

Seu Tuca teve uma filha, fruto de um casamento que não deu certo. Depois de muitos anos sem contato, a filha o reencontrou quando viu uma matéria na televisão sobre os VELHOS GURIS  do Asilo.  Ficou feliz porque a filha não guardou mágoas, convive com ela e com os netos, mas não pretende morar com eles.  Para Tuca, o Lar oferece tudo o que ele precisa: “Não vejo motivos para sair daqui. Sou bem tratado, ajudo meus colegas como posso e tenho meus amigos sempre por perto – o que mais poderia pedir?”.

O grupo tem tido várias formações e, em uma delas, até o cronista aqui exibiu seus “dotes musicais”, antes da imobilização. Época em que ainda não necessitava dos banhos e trocas de fralda junto com a turma de dependentes.  Sabem, aqueles que — tais meninos (guris) — precisam do auxílio para sua higiene, limpeza, as vezes alimentação, proporcionados pelas nossas indispensáveis, cordatas, dedicadas e maravilhosas “ocupantes do papel temporário de mães”  de que lhes falei na crônica anterior.

A questão é que não somente eles, mais todos os moradores permutaram há muito suas condições de Idosos para as de frágeis meninos nas mãos de todos (as) vocês funcionários da Casa.  Acreditem: Somos muito agradecidos  aos cuidados zelosamente dispensados a nós outros…

VELHOS GURIS.

É uma glória para mim, saudar a passagem de meu ex-parceiro de cantorias, disso…
SINTO-ME CONVICTO
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SINTO-ME LIBERTO…

Terça-feira, 31 de março de 2020. Estamos vivenciando uma crise, uma pandemia que leva a todos ao isolamento social. Eu vivo ou melhor moro – vocês sabem – no Lar de Idosos Recanto Tarumã aqui em Curitiba… Tecnicamente estou sob o regime de isolamento social, uma vez que não “saio de casa  para nada” mas, sabem, não me sinto recluso, muito pelo contrário, devido aos últimos acontecimentos em meu entorno, SINTO-ME LIBERTO.

Vou tentar me explicar: Pandemia – todos sabem – é quando uma doença se espalha e avança em quadro epidêmico por várias regiões do planeta, em diferentes continentes,  Alguns exemplos de pandemia são AIDS, tuberculose, gripe espanhola e tifo. A reação de todas pessoas naturalmente é temer,  reclamar ou aceitar e enfrentar as crises advindas.

Aqui no Lar não é diferente:  Funcionários da saúde, gente moça ou  pouco mais madura ao contrário daquela de mais idade que, no caso da pandemia atual, é mais exposta aos riscos da doença, se apresentam religiosamente em seus turnos de trabalho e ação com o intuito de nos servir, assistir e atender serenamente enquanto nós – os moradores – nos dividimos em grupos de combalidos, “moços velhos” e “velhos moços”.

Os dois grupos finais eu propositada e jocosamente pus entre aspas para justificar uma associação que decidi estabelecer neste texto. Já contei pra vocês que gosto de música e poesia, aí uma canção composta em 1977 pelo cantor Silvio César e mais recentemente projetada pelo rei Roberto Carlos, chegou aos ouvidos, meu e do meu parceiro de Youtube João Gilberto, também morador aqui da Casa, então decidi ligá-la ao texto.

Vamos ouvir a canção e analisar a letra de “O velho e o moço“. Enquanto rola esta excelente e orquestrada introdução, peço que se preparem para tentar seguir e acompanhar o meu raciocínio meio envelhecido e confuso em relação à letra da canção… mas já disse antes: Velho é uma m... vamos lá:

UM “MOÇO VELHO” DIRIA ASSIM.
Eu sou um livro aberto sem histórias
Um sonho incerto sem memórias
Do meu passado que ficou

JÁ O “VELHO MOÇO” COLOCARIA DIFERENTE.
Eu sou um porto amigo sem navios
Um mar, abrigo a muitos rios
Eu sou apenas o que sou

O “MOÇO VELHO” INSATISFEITO E RECLAMÃO.
Eu sou um moço velho
Que já viveu muito
Que já sofreu tudo
E já morreu cedo

JÁ O “VELHO MOÇO” CHEIO DO CONFORMISMO…
Eu sou um velho moço
Que não viveu cedo
Que não sofreu muito
Mas não morreu tudo...

…E, SEM INTOLERÂNCIA E RECLAMAÇÕES.
Eu sou alguém livre
Não sou escravo e nunca fui senhor
Eu simplesmente sou um homem
Que ainda crê no amor.

Leitores, alcançaram a coisa toda? Estabeleceram, comigo o diferencial? Esperemos a excelente orquestra fazer o solo da primeira parte do “diálogo” e aí então, vamos ouvir de novo com atenção a finalização…

Eu sou um moço velho
Que já viveu muito
Que já sofreu tudo
E já morreu cedo

Eu sou um velho moço
Que não viveu cedo
Que não sofreu muito
Mas não morreu tudo

Eu sou alguém livre
Não sou escravo e nunca fui senhor
Eu simplesmente sou um homem
Que ainda crê no amor

Vocês perceberam agora porque, “me achando” um  VELHO MOÇO, eu…

SINTO-ME LIBERTO.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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SINTO VIÁVEL..

Quarta-feira, 25 de março de 2020. Devido as reformas em curso no refeitório da Ala 1 (a que abriga moradores totalmente dependentes) nossa Casa está enfrentando diariamente problemas motivados com a transposição de tais moradores — na maioria absoluta cadeirantes — de sua Ala para fazer as quatro refeições do dia no refeitório principal.

A reforma ainda se estenderá por mais uma ou duas semanas – até a Páscoa – e, enquanto não for concluída, esse movimento diário de ida e volta, mexe com toda a estrutura de horários e atendimentos de todos os moradores e funcionários… Então me atrevo a sugerir uma “CONVOCAÇÃO GERAL”, para que essas tarefas possam reduzir o “estresse” que vem se apossando de toda Instituição.

CONVOCAÇÃO GERAL

a) Alguns dos moradores da classe “independentes”, decidiriam seguir o exemplo de um ou dois deles e se prestariam a colaborar, de forma totalmente voluntária e desprendida, na locomoção – ida e volta – daqueles idosos.

b) O pessoal de enfermagem, dividido em três grupos agiriam: o primeiro preparando cada um dos dependentes, em suas cadeiras para o traslado;  o segundo, no refeitório para recebê-los e alojá-los em seus lugares nas mesas e os remanescentes estariam também conduzindo os dependentes.

c) São eles (os dependentes) cerca de poucas dezenas e os voluntários independentes rapidamente os conduziria.

d) Que fique claro e explícito, que esse trabalho não daria direitos aos “voluntários”, de tocar e assediar as meninas e senhoras da enfermagem, em recompensa pela ajuda.

e) Uma vez que se trata de uma solicitação de voluntariado, os moradores “independentes” poderão optar em não fazê-lo e manterem-se em seus quartos, camas ou mesmo sentado em bancos do refeitório, somente apreciando o trabalho de todo o pessoal, enquanto aguardam sua vez de serem servidos.

f) finalmente, caberia a enfermeira de plantão, após receber a oferta de tais cidadãos, programar e coordenar toda a operação. Sinto que não haverá dificuldades em fazer funcionar este “protocolo” dada a boa vontade das pessoas envolvidas.

Se a Assistência Social da Casa, concordar, posso produzir cópias impressas deste texto para que sejam afixadas em corredores das alas dois e três e nas portas da cozinha, lavanderia, recepção, serviço social, sala de jogos, sala da enfermagem e consultório médico, lugares mais procurados e visitados pelos pretensos voluntários.

Jurandyr Mendes Monçores – SeuJura do Recanto.

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AINDA BEM…

Domingo, 22 de março de 2020.  Todos  estamos de quarentena… No mundo; no Brasil; no Paraná; em Curitiba, e aqui no Lar de Idosos Recanto do Tarumã. Assim como os demais velhotes que residem e são acolhidos aqui, embora também intranquilos com a vizinhança desta pandemia, confiamos em DEUS que, providencialmente, nos ofertou você, profissional da saúde. É hora de cantar para cada um de vocês: CLIQUEM.

As fotos são meramente ilustrativas e representativas de apenas alguns dos muitos anjos celestiais que nos cercam ou cercaram, ultimamente. Contamos desesperadamente com cada um de vocês…

AINDA BEM

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SENTI VONTADE DE ABRAÇAR…

Sexta-feira, 20 de março de 2020. Leitores, vocês não fazem a menor ideia de como SENTI VONTADE DE ABRAÇAR, no dia de ontem, uma aniversariante do dia:  FERNANDA IZABELE, Técnica de Enfermagem que irá completar 23 aninhos bem aqui, no LAR DE IDOSOS RECANTO DO TARUMÃ, trabalhando conosco e para nós, se expondo — assim como outras suas amigas e colegas de trabalho — a ser colhidas pela praga do “COROA VIRUS”.

Embora eu esteja gracejando em cima de um assunto tão sério como este da pandemia que está nos ameaçando, na verdade SENTI VONTADE DE ABRAÇAR a causa desses anjos celestiais que saem sistemática e voluntariamente de seus lares para se doarem a homens de idade avançada mas, que não podem, não conseguem ou – pior – recusam acatar as determinações advindas de gente que se importa com eles — conosco…

 

Com relação à aniversariante de amanhã melhor será eu retornar a uma outra publicação de alguns poucos meses atrás. Voltem comigo, clicando em EXCELÊNCIA e aí entenderão porque, apesar dos impedimentos impostos pela atual situação…

SENTI VONTADE DE ABRAÇAR

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SINTO-ME ESPANTADO…

Quinta-feira, 19 de março de 2020. Já se tornou um hábito meu, consultar a página de estatísticas da WordPress, provedor deste blog. Agora mesmo, SINTO-ME ESPANTADO pois não é que  localizei  5 (eu disse cinco) visualizações provenientes da INDONÉSIA.

Isso mesmo. O detalhe é que sendo quase nove da matina — e considerando os tais dos fusos horários — fui na Internet saber que horas seriam, por lá. Fiquei sabendo que a(s) pessoa(s) tinham tido o dia todo de hoje para saborear minha(s) obra(s) prima(s), só que não fiquei sabendo quais…
Captura de Tela (3)Dei uma revisada e conclui que talvez tivessem visto e lido algo assim como a “pérola” que publiquei no fim de março de 2013 (há sete anos), por este motivo convido-o a clicar em FEMUR E QUADRIL,  e assim mesmo tentar entender por que…

SINTO-ME ESPANTADO

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SINTO-ME VENTUROSO…

Terça-feira, 17 de março de 2020. Sinto que minhas crônicas são lidas e seguidas por um razoável número de pessoas… Isso me deixa feliz então, de repente, tenho a Ventura de ler eu mesmo uma rica… riquíssima… postagem feita no Facebook, por um outro velhote que se fez de palhaço há algum tempo e trouxe, com outros colegas, aqui para dentro do nosso Lar, sua arte, sua companhia e sua amizade.

Não resisti, e sem nenhuma vergonha ou pudor, decidi copiar a mensagem do meu amigo e seguidor, Roberto Brunow Ventura… meu palhaço favorito. Leiam comigo:

O velho palhaço

Pra que tanta pressa, meu rapaz?
Aonde é que você quer chegar, correndo desse jeito, pra quê?
Cuidado!
A pressa pode ser tanta, que você pode acabar nem chegando!
Tão preocupado com o tempo que nem vê o próprio tempo passando, e pior:- não vê o que acontece aqui e agora, e muito menos a paisagem lá fora.
Vejo muita gente correndo, andando com muita pressa, ali na praça Rui Barbosa, seis e meia da tarde.
No meu carro, trânsito parado, aproveito para me concentrar e “incorporar” o meu personagem, antes do ensaio no Espaço Excêntrico, a Escola do grande Professor e amigo Mauro Zanatta…
Um personagem cômico representando a Morte, o “Payaso Inmortal”, e que eu vinha preparando com muita dedicação naqueles dias.
Aliás, ele ficou muito engraçado, e o público adorou a peça!
Então, voltando à história.
Foi nesse dia que eu “entendi” porque os idosos andam devagar.
Explico:-
Observando as pessoas que passavam (coisa que gosto muito de fazer), reparei como elas andavam apressadas, muitas só de olho no celular; de vez em quando um esbarrão, e até mesmo um tropeção.
E pensei:-
Para onde elas estariam indo tão apressadas? Para a morte, quem sabe?
Bem, a gente sabe que esse vício do celular e das redes sociais volta e meia cobra um preço alto dos apressados e desatentos.
Acidentes de trânsito, na cidade e nas estradas. Atropelamentos no centro. O rapaz distraído, a mocinha preocupada com os “likes”, vem o “busão”e pronto!
“Game over!”
Acabou-se o tempo de uma vida, talvez antes do tempo.
Foi então que eu vi um casal de velhinhos bonitinhos, de mãozinhas dadas e tudo. Andando devagar como andam os idosos, olhando para as pessoas, as plantas e as flores do jardim. Passeando pela praça, como se estivessem sem pressa nenhuma de chegar a lugar nenhum…
E eu, que começo a vivenciar meu processo de envelhecer, compreendi!
É pra demorar mais pra chegar, é por isso que véio anda devagar…
Na verdade, a gente só se dá conta que a Vida vale a pena, quando percebe que ela é curta, muito curta demais!
E no que me diz respeito, na parte que me cabe, eu aprendi a deixar a Vida me levar, devagarzinho, aproveitando cada momento e cada oportunidade de ser feliz, antes que ela se acabe…
Amar e brincar, os dois mandamentos do Palhaço. Meu lema e ocupação atual.
Simples assim!

(“E hoje, fazendo este palhaço QUE SOU, eu encontrei essa coisa em mim, a minha melhor parte!
Brincar, provocar, burlar; fazer o público rir, RIR!
Isso era tudo o que eu queria pra minha vida!”)

Roberto, lendo a ti, e por tua amizade, Ventura

...SINTO-ME VENTUROSO

 

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