FAZER DIREITO

Hoje eu voltava do Restaurante Popular da Praça Rui Barbosa (1 real) e, encontrei no ônibus a Débora. Falava com alguém no celular, acho que era com sua mãe, e comunicava que o dinheiro já estava na conta e o pagamento de dois aluguéis havia sido feito. Não resisti e abusadamente comentei “Segunda feliz. Pagando contas. Que coisa boa” e me preparei pra levar um merecido fora pela intromissão descabida.

 

Surpreso, ouvi a jovem simpaticamente confirmar e ainda alimentar o papo falando de um passado recente em que ela, diplomada em advocacia prestou serviços em um escritório de velhas raposas do direito durante dois anos e meio, enquanto enfrentava o  provão da OAB. Não havia ainda conseguido a aprovação e nunca viu a cor do dinheiro na retribuição pelo seu trabalho. A surpresa foi explicada rapidamente quando, além do nome, se identificou como cidadã  de Santa Catarina… Curitibana é que não podia ser.

 

Débora me trouxe à lembrança outra Catarinense, Liseth sobrinha da Mariza (lembram de Dia dos Namorados ?) que também aguarda superar a barreira do tal provão. O negócio é complicado e exige mergulhos profundos em volumosos catálogos e tratados analíticos de jurisprudência, um inferno. Curiosamente, candidatos que contam  com juízes e desembargadores na linha de ascendentes próximos, têm mais chances de aprovação. Acredito que é de tanto ouvir falar em justiça e direito em casa, quem sabe… quem sabe.

 

Mas surge a questão: por que fazer direito? Qual serão as razões que conduzem massas fantásticas de candidatos à universidade na direção desse curso? A disponibilidade de vagas é proporcionalmente maior? Cursar direito é o sonho de jovens idealistas que pretendem consertar as injustiças do mundo? Será que é por este caminho que o cidadão ambiciona deter poder na condição de delegados, juízes ou promotores de justiça?

 

Ou seria o aceno à busca de fortuna fácil embutidas em causas milionárias, quem sabe de um rico empresário desonesto, ou daquele traficante famoso de quem vale a pena fazer papel de pombo-correio de fora para dentro da prisão, afinal, os exemplos proliferam por aí na mídia escrita, falada e televisionada. Conjecturas… nada mais.

 

Em 1972/73, ainda morando no Rio de Janeiro, eu era Analista de Sistemas da Mesbla, um potentado comercial da época e um dos pioneiros das lojas de departamento no Brasil. Nesta época começou a surgir nas grandes empresas uma novidade: o Departamento de Recursos Humanos e no seu quadro, o famigerado Analista de Cargos e Salários. O cidadão provou por a + b que para ocupar o meu cargo e fazer jus ao meu salário eu teria que ter um curso superior… qualquer.

 

Com meus 36 aninhos e a escolaridade ancorada num supletivo de nível médio (chamava-se Artigo 99), examinei minhas chances e não deu outra: fazer direito. Quer dizer, tentar passar no vestibular de um curso de direito pois a proporção candidato/vaga era maior e “tentar” era o termo mais adequado uma vez que eu não fiz e nem tinha tempo de fazer um cursinho pre. Fiz a inscrição,  as provas e… passei… Modéstia à parte dei show na redação, olé na prova de português e excelente nota numa tal de OSPB (Ordem Social e Política Brasileira). Sabe aquelas viagens em livros que eu descrevi na crônica novamente? Valeram.

 

Dois semestres, no direito, “todos os cidadãos são iguais  perante à lei”, e eu pulei fora, não consegui acreditar no produto… eu não ia conseguir fazer direito. Me transferi para a PUC e então fiz o curso Tecnólogo em Processamento de Dados… melhorou.

 

O Brasil, país de dimensões continentais cerca de 8 milhões e meio de km e uma população de quase 185 milhões da habitantes de origem multi-étnica e etc… etc… A direção e o comando de um gigante desse, com todos os seus problemas e requerimentos nos sugere perícia e perfeição e, então eu raciocino: Como é que nunca soubemos notícia de que o atual dirigente passou numa faculdade para, pelo menos…

 

Fazer direito

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4 respostas para FAZER DIREITO

  1. Pedro disse:

    Talvez alguém que conheça ou curse Direito possa argumentar a favor, mas eu como admirador e praticante de Exatas jamais entenderei este ramo aonde jurisprudência, precedente e habeas-corpus conseguem livrar da cadeia políticos que cometem genocídio e mantêm preso por décadas pessoas que roubam margarina pra matar a fome. Não entendo e também nem quero. Não faz bem pra digestão. Viva o preto no branco. Viva Exatas.

  2. eolo.ventura disse:

    Cara, ainda bem que o Pedro, meu filho, foi pra Engenharia Mecânica, passou longe do "Direito" (aspas necessárias).Concordo com o Pedro (Monçores), e boto "jornalistas" na vala comum dos "advogados".(botei tudo entre aspas pra me livrar de eventuais "ações judiciais". Aspas nos livram (um pouco) de "hienas")

  3. Paulo disse:

    Um ser humano julgando outro? Hmm… Um ser humano defendendo outro e cobrando para fazê-lo? Hmm… Não DÁ para sair nada de bom. Profissões de merda… Com 40 anos de experiência devo concordar com o Dr. House – tomo mundo mente –  e adiciono que todo mundo fez algo na vida ou vai fazer que mereceria cadeia. A ironia é que só poucos são pegos, justamente os ladrões de galinha (ou de margarina). O pior é que você vai ficando mais velho é a quantidade de merda no sótão só aumenta, mas só você sabe e vive com aquilo. "Aquele que não tiver pecado, que atire a primeira pedra!". Mas vai sempre ter um filho-da-puta que vai jogar. Se alguém pergunta: "irmão, nunca erraste?". Ele responderá: "Dessa distância, nunca…" Direito? Muito bom na teoria mas demasiadamente dificil de praticar… Melhor fazer quaquer outra coisa que ajude a retardar a nossa extinção como raça.

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