UM ESTRANHO NO NINHO

Em minha última publicação, escrevi que sou morador de uma ILPI (no caso O Lar dos Idosos – Recanto Tarumã, em Curitiba – PR). Na série anterior de publicações neste meu blog, em um post , “DUDA VEM AÌ”, coloquei a seguinte descrição para o Lar:

 “A instituição Sociedade Socorro aos Necessitados, fundada em 1921 é a mantenedora daqui do Lar dos Idosos e de uma creche no centro de Curitiba. Clara a dedução, se tem 87 anos e ainda não se desintegrou é porque é séria. O Recanto é um maravilhoso lugar, lotado de maravilhosas pessoas dedicadas a servir uma plêiade de homens no crepúsculo de suas vidas. Desde o dia 22 de setembro estou aqui desfrutando de um universo nunca dantes imaginado por mim e, tenho certeza por nenhum de vocês, leitores. Uma coisa é assistir matérias sensacionalistas nos veículos de comunicação exibindo imagens apocalípticas de asilos em que os residentes são trapos humanos ultrajados, vilipendiados e maltratados por desumanos carrascos, outra coisa é testemunhar o respeito que aqui é proporcionado àqueles que “ousaram viver tanto”. Coisas do Sul do Brasil, coisas de Curitiba! ”.

 

Pois muito bem. Recordo para vocês, ainda, outra afirmação vazada na edição anterior: Sociopatas, indigentes e vítimas de acidentes clínicos que lhes subtraem movimentos e obliteram os sentidos da visão, audição ou embota-lhes a capacidade de comunicação oral, formam maioria absoluta nestas instituições”.

 

Então caberia a pergunta. O que o autor está fazendo ao morar neste Lar?

Credito a resposta às explicações obtidas na doutrina que professo há um bom número de anos: Forças emanadas de um poder superior me conduziram a esta escolha. Eu poderia, com meu livre arbítrio, tê-la negado,  no entanto, ao contrário, decidi aceitá-la e aqui estou.

 

Aparentemente não me enquadro na descrição dada acima para a maioria absoluta da população desta ILPI, o resultado é que me faço parecer “um estranho no ninho”, parodiando uma premiada peça cinematográfica do final dos anos noventa.

 

Tenho formação cultural e profissional eclética. Viajei por livros sobre os mais diversos assuntos do clássico ao popularesco e colecionei variados cursos profissionalizantes e técnicos que deram subsídios para trabalhar em indústria, comércio, serviços e instituições governamentais, isto até os 37 anos. Há cerca de trinta e cinco anos e até recente época, venho atuando ativamente nas funções de Analista de Sistemas, escorado num diploma de curso superior de Tecnólogo de Processamento de Dados, obtido na PUC-RJ. Meu primeiro registro em Carteira de Trabalho, com tal função data de 06/05/1974 numa empresa de Crédito Imobiliário, no Rio de Janeiro.

 

Até parece a sinopse de informações para a montagem de um “Curriculum Vitae”, mas com isso quero denotar o quanto meu perfil difere daqueles que formam a maioria dos meus pares aqui no Recanto.

 

Estar aqui, 24 horas por dia dividindo espaços, benefícios, dificuldades, tristezas e alegrias, nos últimos 100 dias, o que me confere 2400 horas, tem sido uma revelação e, como disse a Assistente Social que administra a Casa, um desafio para mim e para todas as pessoas que vêm fazendo parte deste meu novo universo.

 

Tenho me saído bem. Praticando a humildade, o bom humor, a gentileza, o bom senso observador e, principalmente, a atenção aos atos e fatos em torno de si, indispensáveis para o exercício da profissão de analista, tenho conquistado, junto a população e aos quadros funcionais e auxiliares, muitos mais afetos que desafetos.

 

Isto, decididamente me faz acreditar – baseado no discurso do eminente Doutor José Mário Tupiná Machado, responsável técnico da Instituição – que posso iniciar meu sonho de estar obtendo uma velhice digna, privilegiada e não doentia. Só é preciso escapar da imagem de ser

 

UM ESTRANHO NO NINHO

   

 

 

 

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Uma resposta para UM ESTRANHO NO NINHO

  1. Republicou isso em Espaço de Jurandyre comentado:

    25 de abril de 2019 – Há pouco mais de dez anos atras, em janeiro de 2009, quatro meses depois de ingressar neste Lar, publiquei a crônica que ora “reblogo”. Afinal, será que fui, sou e continuarei sendo por aqui, um ESTRANHO NO NINHO? Nosso amigo Leonardo, visitante voluntário em “papo furado” comigo hoje, fez-me ressuscitar esta dúvida. Será, gente? Aceito opiniões:

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