Alô Alô Realengo…

Alô Alô Realengo..

Aquele Abraço é uma canção do cantor e compositor Gilberto Gil, composta em 1969, que menciona pessoas, bairros, clubes, escolas de samba e figuras cotidianas do Rio de Janeiro. 1969, foi o ano em que nasceu Pedro, meu filho, enquanto curtíamos nossa primeira fase  de residência em  Curitiba. O baiano, ex-ministro da cultura, anunciava em versos: “O Rio de Janeiro continua lindo; o Rio de janeiro continua sendo; o Rio de janeiro, fevereiro e março…”. Agora estamos em abril e no dia 16, Duda, minha neta filha do Pedro, completa dois aninhos.

Ontem, domingo dia 10, aconteceu um clássico do futebol carioca (botafogo x flamengo). Flamengo, é meu time do coração e também dos meus filhos,  Pedro e Paulo. Super popular provocou a inclusão de seu nome no mesmo samba “Alô, Alô, Realengo… aquele abraço… Alô,  torcida do flamengo… aquele abraço…”. Realengo só foi mencionado como recurso poético do autor para encontrar um rima adequada ao nome do clube que, por sinal congrega imensa massa de torcedores nesses bairros cariocas , de gente mais modesta e menos favorecida da sorte.

Marqueteiros de uma das equipes participantes do embate, fizeram constar impressos nas camisetas,  de cada um dos jogadores, o nome de cada uma das doze vítimas fatais de um massacre infantil sem precedentes em nossa história, ocorrido dias antes …  em abril… em uma escola do bairro de… Realengo.

As crianças imoladas contavam com nove, dez ou onze anos mais que minha neta,  Duda, e o assassino as matou, impiedosamente, segundo depoimento de uma sobrevivente, com um estranho sorriso nos lábios. Coisa de louco!

Usei acima a palavra marqueteiro, forma aportuguesada para o profissional de marketing. Isto porquê, a tragédia como um todo, as razões do assassino, causas e responsabilidades pelo  morticínio, alavancaram um processo voraz de exploração da fato, acobertado pelos discursos de alerta, solidariedade, busca de soluções que nos transporta para o  “modus operandi “ da avassaladora quantidade de novos (novos para mim que conto com 74 anos), profissionais da comunicação social, comunicação visual, jornalismo, publicidade, vendas, marketing e outros congêneres.

Nada que possa se afigurar de aspecto suntuoso pode escapar na busca de atração e audiência por parte da populaça consumidora. A busca aos cursos universitários, estágios e empregos para os profissionais supra mencionados é imensa. Parece que é mais fácil ficar a espreita de um terremoto, tsunami ou barbaridade como o episódio de Realengo para garimpar, lapidar e comercializar seu produto, sua imagem ou da organização para a qual se trabalha.

Assistimos uma corrida desabalada,  sem regras e limites para a obtenção da popularidade e notoriedade. O próprio assassino conseguiu isto, embora de maneira insana. O mesmo veículo que nos enche de detalhes da tragédia, logo após o comercial (custeado pela audiência), nos coloca de frente com novelas  em que uma personagem que figurou num reality show se utiliza de  quaisquer expedientes, quase sempre escusos,  para “chegar  lá”.

Terá ele (o assassino), se empolgado um dia com a fama, incansavelmente descrita, de um desses carrascos que mata ou manda exterminar pessoas por puro delírio e necessidade de aparição, contando com a “‘cobertura do fato”, hoje com a globalização,  em tempo real?

Será que alguma aterrorizante série cinematográfica (já está sendo divulgada a apresentação de “A Hora do Espanto 4”) ou  algum dos inúmeros jogos de vídeo game onde o jogador atira espalhando quase impunemente o sangue dos inimigos,  amparado pelo fato de que possui três ou cinco vidas para perder, o tenha conduzido a extremos da banalização do horror?

Ou será que apenas tenhamos que concordar com as predições contidas no Apocalipse de São João e aguardar o final dos tempos praticando SEMPRE, algum tipo de atividade que gere bons  exemplos  para quem nos assiste, nos acompanha, nos sucede (como a Duda) e oferecer ouvidos moucos ao que é ruim e ao que nos parece destrutivo.

Enquanto isto permanecemos a mercê do sensacionalismo gritante dos marqueteiros de plantão que nos gritam “alô alô Nova York e suas torres gêmeas em setembro de 2001”; “alô alô Cairo do ex presidente Mubarak”; “alô alô Líbia de Muamar Khadafi” e agora, mais recentemente…

Alô Alô Realengo.

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8 respostas para Alô Alô Realengo…

  1. Maria Clara disse:

    Interessante o fato de vc. destacar o show da midia… talvez melhor fosse, um minuto de silêncio… uma prece, uma terapia coletiva… que pudesse nos remeter a Nínive – que OUVIU e ACATOU a necessidade de MUDANÇA… desconsertando Jonas…. quem sabe ainda temos salvação?!

  2. Lisete disse:

    Oii Jura!!!! sem palavras sobre seu texto!
    absolutamente coerente!
    abraços meu queridO*

  3. Claudia Schischoff Moncores disse:

    Sogro,

    Eh muito bom ver a clareza de ideias com a qual o senhor escreve. Continue seu trabalho como escritor. Poucas pessoas tem a disposicao que o senhor tem de expor suas ideias de uma maneira que elas fiquem registradas. Sempre, alguma coisa que o senhor escrever, vai ficar marcada em alguem, em alguma vida. Parabens pelo texto.

  4. Rosangela disse:

    Querido Jurandir, é com um pesar enorme que concordo com vc ao ler e tbm comentei, a sua cronica, acho que deveria encaminhar para os jornais…Muito crítica, envolvendo um amplo contexto da vida contemporanea ou primitiva???? bj Ro

  5. Pedro Monçores disse:

    Seguindo sua linha de raciocínio, foi então um “final feliz” para a tragédia… por que se ele não tivesse se matado na sequencia, e estivesse preso ou fugido, a mídia se deliciaria durante semanas suspeitando, provendo medo e alternativas delirantes de precaução para o que é surreal como o que aconteceu. Insanidade pelo ato, fatalidade pelas vítimas. Concordo com voce. Ponto final.

  6. Hilber Barros disse:

    Perguntas sem respostas. Infelizmente a curiosidade do homem faz crescer a necessidade do apelo da mídia. Só tem mídia assim porque tem gente assim, curiosa pela desgraça alheia.

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