O CAMINHO…

25 de maio de 2011

Dentre os comentários recebidos por conta da crônica “Há 25 Anos”, publicada em 02 de março destaquei em um, gerido por meu filho Paulo,

Uma sugestão para o futuro seria um post sobre porque você optou em se auto internar em um asilo ao invés de morar sozinho”.

Eles, meus filhos, conhecem como ninguém minha obsessão pela busca constante de O CAMINHO em direção à qualquer coisa boa para mim, para eles e, se fosse possível, para o resto do mundo.  Inúmeras vezes, mudei de residência, de atividade profissional, de doutrinas e credos religiosos, políticos e comportamentais. Claro que essa busca deu, inúmeras vezes, em nada que prestasse. Fazia parte do aprendizado… eu acho.

Como Analista de Sistemas, durante 12 anos, “mandei bem” estudando fórmulas e formas  para que meus empregadores –  Loja de Departamentos (Mesbla), Grupos Financeiros (Delfin e Grande Rio), Instituições Bancárias (Comind e Sudameris), Empresa Jornalística (Jornal do Brasil) e Editora (José Olympio) – todos no Rio de Janeiro, tivessem seus registros e dados devidamente bem processados em portentosos computadores (mainframes) em suas matrizes e filiais espalhadas por este Brasil, tudo sem auxilio da bendita Internet.

Mudei novamente O CAMINHO quando embarquei para Curitiba, HÁ 25 ANOS,   e coloquei minha genialidade a serviço de clientes daqui do Sul do país. Caramba!  “O bicho pegava”… Pouca gente cria que os PCs, aqueles pequenos e estranhos engenhos poderiam substituir a contento suas tradicionalíssimas  calculadoras, maquinas de lançamentos contábeis, de  datilografia, telex e é claro, o telefone. Eu ia conseguindo, paulatinamente, convencê-los, durante um bom tempo com ajuda dos filhotes que logo,  logo “descobriram” que eu estava ficando meio por fora da tecnologia e “vazaram” cada um em busca do seu próprio CAMINHO.

A medida que eu fui conseguindo, ainda assim, resolver problemas… tornei-me insuportável, “me achando” e parti para o “sai da frente que eu quero passar”. Nada e ninguém poderia ser mais importante para mim. Eu era “o cara”.

Numa das inúmeras contingências da vida, meu casamento com a mãe dos “meninos” naufragou, mas, somente após 34 anos de vida em comum. Durante esse longo período pude testemunhar como é possível uma pessoa “assombrada com seus próprios fantasmas” usar os receios constantes em favor da criação de seus filhos. Preocupada para que eles não fossem colhidos pelas adversidades, deu-lhes auto-disciplina em doses paquidérmicas (doses de elefante, já disse antes). O resultado… acho que meus leitores já conhecem.

Dois anos depois da “separação” surgiu um novo CAMINHO. Conheci no Estado de  Santa Catarina, no Balneário Camboriú, uma jovem mulherzinha de trinta anos de atitudes bastante singulares. Denominei de mulherzinha a Mariza, porque seu peso, vim a saber posteriormente, era de apenas 39 quilos. Parecia uma guria com aparência Hippie dos anos 60 que portava, inclusive um par de escuros óculos redondos, estilo John Lennon.

A singularidade residia no fato de que a jovem estava há quatro anos numa fila de transplante pulmonar duplo, em decorrência de uma bronquiectasia que lhe conferia incríveis e constantes crises de insuficiência respiratória e, como se não bastasse, era vítima de uma rara e incurável enfermidade denominada HAP (Hipertensão Arterial Pulmonar), ou seja o processo de hipertensão arterial ocorria no curtíssimo, e vital, trecho entre o coração e os pulmões. Pois bem, a menina estava sempre sorrindo, e vivia transmitindo alegria as pessoas em torno de si.

Sagitariana como eu, farejou em mim um provável bom parceiro de papos e não teve dificuldades em conquistar a nova amizade. Foi só achar graça em minhas piadas, as mesmas de humor duvidoso que os leitores e conhecidos já não aguentam mais ouvir. Nos quase quatro anos em que estivemos juntos, me habituei a vê-la cumprimentar: com carinho,  pessoas com cargos humildes; com respeito e atenção motoristas de ônibus e viaturas oficiais, porteiros e atendentes nos hospitais e postos de saúde; com serenidade e dignidade profissionais médicos e autoridades. Ela era voluntária no próprio hospital que a assistia, cobrindo leitos de pacientes sem visitas.

Quando ela faleceu, por conta da HAP, em 16 de novembro de 2007, percebi que, aos 71 anos de idade, NUNCA e NINGUEM, dentre meus parentes havia até ali, morrido em minha presença. Aí consultei OS PODERES SUPERIORES, cuja a essência  carrego dentro de mim e pedi que me intuísse um novo CAMINHO.

Combinei com o Pedro e voltei a morar em Curitiba, sozinho. Revejo  a observação contida na sugestão acima

porque você optou em se auto internar em um asilo ao invés de morar sozinho”.

Morar sozinho tendo um computador, uma pequena geladeira, um forno micro ondas, fogão e setenta e alguns anos de idade torna-se absurdamente perigoso nos momentos de violência em que vivemos. Mas, quem anda com Deus não tem medo de assombração, não é? Agora, morar sozinho e sair cumprimentando com carinho pessoas com cargos humildes, porteiros, motoristas de ônibus e viaturas oficiais pode arregimentar transtornos e desconfortos ao corôa. Morar sozinho e não ter chances de contar as mesmas velhas piadas a pessoas diferentes, podem crer… adoece.

Por outro lado eu não me auto internei em um asilo. Busquei e encontrei um Lar de Idosos. Aliás, contei para sua filha Giovanna, na publicação anterior, que acredito que “Alguém Lá em Cima Gosta de Mim”. O Recanto Tarumã, onde moro  fica em Curitiba, cidade que você exaltou em seu blog “Viajar é Preciso”, como sendo, no mínimo, séria.

O Lar dos Idosos é dez. Moram aqui alguns velhotes  chatos e destrambelhados, como eu próprio; alguns outros dementados; alguns mais pretensiosos achando-se a última bolacha do pacote; tem quem reclame o tempo todo, praticando a velhice doentia e tem o João Paulino, tetraplégico, totalmente dependente dos cuidados e atenções de outrem, para TODAS as necessidades  básicas.

Acontece que o João Paulino tem a mente lúcida… e arejada. Fala com extrema dificuldade mais não deixa de pedir por favor e agradecer por qualquer ajuda que recebe. Reside aqui há 32 anos, tornou-se abrigado não por velhice e, sim pela incapacidade produzida pela doença, a hipertonia muscular, que o aflige desde a mais tenra idade. Consegue dominar tão somente o movimento do braço e do dedo médio da mão esquerda. O suficiente para ligar, desligar e mudar as estações do radio portátil que os tratadores encaixam em seu colo. Com esse movimento digital também consegue “deitar” pedras de dominó que lhe são alinhadas á frente, em uma mesa. Isto, mais uma memória privilegiadíssima para números (para datas, também) o, torna em exímio jogador, quase imbatível. E ele ri, dispara gargalhadas monumentais frente a quaisquer piadas e fatos jocosos ocorridos à sua volta. É pura alegria contagiante.

Aqui, um contingente de dedicados funcionários de saúde, cozinha, lavanderia, limpeza e arrumação, assessorados por competente equipe técnica (psicoterapeuta, fisioterapeuta, musicoterapeuta, terapeuta ocupacional e nutricionistas), todos capitaneados pela Jocélia e pela Fabiana Espínola, a primeira já mencionada na crônica MORRER FELIZ e a segunda incrível e competente administradora – nunca vi uma pessoa ligeiramente estrábica enxergar tanto.

A supervisão técnica corre por conta do eminente gerontólogo e geriatra Dr. José Mário Tupiná Machado (vide VELHICE É UM PRIVILÉGIO). O trabalho de todos é  feito com a maior probidade e atenção a nós, os abrigados, apesar dos conflitos e emperrações geradas pelo “salto alto”  do pessoal burocrata  que não está nem aí para os idosos, ignorando o fato de que, é da existência desses velhinhos, que resultam seus cargos e empregos.

Mas, felizmente, existem exceções. Uma delas é a Fernanda Sales, que em seu constante e incansável  trabalho de garimpo e atração de recursos e benefícios da sociedade periférica em nossa direção, deu-me um material extraordinário para bem falar da Curitiba deste Paraná que aprendi a amar e respeitar.

O negócio é o seguinte: 102 idosos moradores daqui, para tomar seu banho diário , quente que ninguém é de ferro nesta cidade, vinham produzindo um respeitável consumo de energia elétrica pela instituição. Se considerarmos que um terço desta população é de total dependência e têm que ser “detidamente lavados” pelos cuidadores e outro terço, de semi dependentes são agrupados em banhos coletivos, quando os chuveiros permanecem abertos para o “rodízio”, por um bom tempo, aí então o caso é sério.

Então a Fernanda, da Coordenação de Comunicação Social, garimpou um programa divulgado pela COPEL (Companhia Paranaense de Energia Elétrica), foi atrás e, pasmem senhores! Uma também paranaense empresa de tecnologia em aquecimento solar, em tempo Recorde,  nos dotou  de um majestoso sistema de geração, manutenção e distribuição de água aquecida para os três principais balneários da Instituição, alimentado tão somente por energia solar captada por vistosas placas ajustadas em nossos telhados.

Não conheço detalhes, minúcias ou desdobramentos  da operação, apenas sei que eu, meus 101 companheiros e o meio ambiente estamos sendo agraciados por mais uma atenção dessa gente atenta. Coisas de Curitiba, coisas do Paraná, coisas do Sul do Brasil.

Paulo, meu filho. Pra variar mostrei-me confuso ao explicar como e porque cheguei aqui, mas, acho que você e os demais leitores devem entender porque me sinto bem aqui. O portal que me possibilita usar este blog, me ofereceu vários temas e imagens para apresentá-lo. Escolhi este que encima a crônica. Com a ajuda do seu irmão Pedro, plantamos as placas de entrada da instituição à frente de uma alameda de ensombrecedoras árvores. Sinto-me identificado com a silhueta do homem no centro da foto. O nome da obra de arte é “the path”, cuja tradução, vocês sabem muito bem, significa…

…O CAMINHO.

Esse post foi publicado em CRÕNICAS DE UM IDOSO. Bookmark o link permanente.

10 respostas para O CAMINHO…

  1. visitante disse:

    Perfeito.

  2. Carla Brasil Magno disse:

    Oi seu Jura! Acho que posso lhe chamar assim, pois eu vi que é desta forma que carinhosamente é chamado. Eu tive o prazer de lhe conhecer hoje, foi um breve momento, mas através de suas palavras e pensamentos eu posso afirmar que foi um prazer conhece-lo, que seus posts fazem bem a alma.
    Eu me identifiquei muito com o “caminho”, pois estou construindo os meus, alguns agradáveis e floridos e outros tortuosos e com pedras, mas são todos escolhidos por mim e sempre entregues a Deus. Eu vou começar na próxima semana como voluntária No Lar dos Idosos Recanto do Tarumã, mas eu espero ser mais que uma voluntária e sim uma amiga.

  3. Thatyane Pelodan disse:

    Amo ler seus textos!
    Bjo

  4. Pedro Monçores disse:

    Eu vi pessoalmente o produto final dessa operação de aquecimento através de espelhos solares e realmente foi uma bela e útil conquista. Definitivamente está sendo um bom CAMINHO.

  5. Bacana, pai. A distancia e a falta de contato mais frequente prejudicam o entendimento de certas coisas. Depois te ligo e batemos um papo. Abracao!

  6. Letícia disse:

    Confesso que fiquei encantada com suas palavras. O senhor tem uma simpatia e uma alegria de viver que qualquer pessoa, não importando a idade, fica com um pouquinho de inveja. Mas não é a inveja ruim, é aquela boa que nos motiva a sempre buscar algo melhor.
    Sou voluntária no Lar dos Idosos do Tarumã, e tive o prazer de conhecê-lo neste último domingo dia 09/10. Espero que possamos conversamos muitas outra vezes.
    Felicidades.
    Letícia

  7. Pingback: ABDICAR… | Espaço de Jurandyr

  8. Reli esta crônica agora, lentamente, calmamente.. E por esta leitura, matei um pouco da saudade que sinto do meu pai, que já vive em outras paragens e do meu mano Jura que vive neste Lar abençoado….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s