O POVO UNIDO …

Este domingo, 13 de janeiro de 2013, despertou-me a vontade de recordar uma época da minha vida em que me acreditei possante. Um indivíduo que ajudaria a mudar o quadro social do Brasil. O adolescente de 14 anos de idade, que havia lido e digerido o “Manifesto de Agosto de 1950” do PCB de Luiz Carlos Prestes, acumulou minhocas na cabeça de uma tal maneira que, em 1964 com 27 anos, acabou sendo preso por militância de esquerda, logo após o Golpe Militar que depôs e levou ao exílio o então presidente João Goulart.

O Povo Unido Jamais Será Vencido!”, era o brado que entoávamos, eu e o povo para quem eu acreditava valer a luta pelo poder, pela democracia. E todos gritavam, pulavam e até sambavam como se fora carnaval. Depois chegou o casamento, a paternidade e a consciência com a qual me certifiquei do ledo engano de que isso poderia dar certo. Em junho de 2008, num dos primeiros “posts” deste meu blog, PORCOS SELVAGENS, os leitores já puderam conhecer a postura, quanto ao populismo, deste novo cidadão maduro de setenta e dois anos vividos à época.

O elemento despertador de agora veio de um email que a Clara (sempre a Clara!) me remeteu com uma apresentação de slides (PPS) intitulado “O Desabafo de Um Grande Pensador”, formatado por sobre um texto de Rubem Alves, “irado”, como dizem agora os jovens. Eu gostaria de ter a envergadura cultural e literária desse psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro, mineiro de Boa Esperança. Eu gostaria de ter sido autor desse texto que se ajusta como uma luva no meu eu presente. Texto que, desavergonhadamente, copiei e adicionei nesta crônica de hoje.

Em tempos passados se invocava o nome de Deus como fundamento de ordem política. Mas Deus foi exilado e o “povo” tomou no seu lugar; a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio, o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na bíblia o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moises, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse a adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os dez mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias, amava a prostituição. Pulava de amante em amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão em perdão. Até que ela o abandonou.

Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu? Viu sua amada vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas, comprou-a e disse: “Agora você será minha para sempre .“. Pois o profeta transformou sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.

Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para o leão, se transformaram em donos do circo.

O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praça pública. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro “O Homem Moral e a Sociedade Imoral”, observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais, sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.

Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de por fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida de um time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo .

Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.

Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é a massa de manobra sobre as quais os espertos trabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular que elegeu Barrabás. Durante a revolução cultural na china de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo amava o Führer. O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock , não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol.

Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de “boca-de-forno”, à semelhança do que aconteceu na China. De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute; “caminhando e cantando e seguindo a canção.”, isto é tarefa para os artistas e educadores. O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.

Rubem Alves.

Por estes motivos tenho preferido relacionamentos individuais com as pessoas com quem interajo, pois assim, tenho mais condições de selecionar o séquito que me rodeará, neste término do expediente da vida que estou experimentando. Indivíduos isolados…

Nunca mais …

O POVO UNIDO.

Mais Rubem Alves em Eu Maior.

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3 respostas para O POVO UNIDO …

  1. Pedro Moncores disse:

    ” O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. ” A verdade nua e crua.

  2. l disse:

    caro amigo. Entendo e compactua me parece que a escola da vida e o tempo tambem sao formadores. Se a faculdade forma o psicologo a vida forja o psico-logico. Importante mesmo ,e, o que diferencia um do outro sao os valores as coisas boas que um tem muito para dar e outro sequer conhece. O norte depois de reconhecido por vezes e so para saber onde estao as outras direcoes e definir a que devemos seguir. Se… a experiencia esta pouco valorizada infelizmente, e porque ainda nao aprendemos a conjulgar o verbo na terceira pessoa. E, onde se cultiva a cultura que um ganha e o outro tem que perder nao existe a possibilidade do ganhar x ganhar. Existe o Brasil da brasileia…e, existe o BRASIL dos bons brasileiros, este, e o que com todos os improperios possiveis, ja e a sexta economia mundial. Esta e uma vitoria que cidadoes da sua envergadora conquistaram, tenha certeza que sua geracao tem muito do que se orgulhar. Parabens, se o BRASIL e hoje uma realidade que o mundo tem que respeitar, se somos o pais das possiblidades, o pais do futuro… E gracas a rebeldia com causa!!! Abraco. Ferrari

  3. marcia disse:

    Faço as palavras do grande amigo Ferrari as minhas ,quando começei a ler esse comentário tive a certeza que só poderia ser dele bjs

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