VALORIZAÇÃO DA VIDA…

Vamos agora à crônica deste domingo, 03 de março de 2013.  A Valorização é, ou devia ser, a principal tarefa a ser desempenhada por cada uma das produções do Criador, em relação à sua própria vida e,  principalmente, à do seu semelhante.  Tomemos como referência a criatura humana da qual, eu e você leitor, fazemos parte. Porquê valorizar? Bem, no meu post NÚMEROS, publicado no primeiro domingo do ano, fiz a seguinte observação:

O Criador nos permitiu a chegada ao mundo através de uma “loteria” em que apenas um dos 200 a 500 milhões de espermatozóides produzidos em um ato sexual, se transforme em você”.

Como  não valorizar um prêmio deste? Quanto a importância que atribuo ao meu semelhante, fui retirar da primeira aula que tive na Faculdade de Direito Cândido Mendes no Rio de Janeiro. (veja no post FAZER DIREITO de julho de 2008). Tratava-se de uma aula de sociologia e o professor me conduziu, e a turma, a uma assertiva de que toda a sociedade pode ser considerada simbolicamente um teatro no qual  cada um de nós atua como ator social desempenhando um ou variados papéis dos mais diversificados graus de importância e duração.

Então uma mulher desempenhando o papel de mãe pode ser encontrada numa sala cirúrgica,  em companhia de outro ator no papel de marido e pai, sob a assistência de uns tantos outros atores, como enfermeiros, anestesistas e cirurgião, encarregados de trazer à luz e ao palco um novo acréscimo ao elenco. Como são importantes todos eles e todos os outros atores e atrizes em torno de cada um,  em seus lares e bares!

Agora uma estorinha: Minha separação conjugal com a mãe dos meus filhos ocorreu em maio de 2001, aqui mesmo em Curitiba. Tratava-se de um desenlace de algo que durou 34 aos.  Não tive coragem nem vontade de voltar ao Rio para perto de meus pais e irmãs e,  além do mais, ainda remanesciam algumas empresas clientes do sistema administrativo informatizado para os quais eu prestava assessoria e manutenção, na cidade. Decidi me aportar na quase vizinha cidade catarinense de Balneário Camboriú.

Lá, acabei indo residir num “pombal” (O Edifício San Martim com 12 andares de 20 apartamentos do tipo quitinete). Morava no 10º andar. Visitava semanalmente meus 4 clientes de Curitiba onde permanecia por 2 ou no máximo 3 dias.  Sábados, domingos e o restante da semana eram dedicados ao computador e praia durante o dia. À noite encontro com alguns outros solitários em torno de uma mesa de bilhar… todo o santo dia.

Parecia bom, não é?  Mas os 34 anos de vida intensa, repleta de desafios, mudanças de domicílio e amigos…  muitos amigos, não podiam ser assim tão abruptamente substituídos por aquela solidão…aquele vazio. Eu me sentia, como se diz aqui em Curitiba, como um cachorrinho que cai do caminhão de mudança. Andei até pensando em fazer a besteira de acabar com o “presente do Criador”.

250px-Cvv-logoEntão, não lembro exatamente como mas sei que na hora certa, me deparei com um prospecto de divulgação do CVV (Centro de Valorização da Vida). Um convite e um número de telefone colocar-me-iam em contato com alguém disponibilizado a ouvir meus desabafos de forma anônima.  Um ouvido, era tudo o que eu mais queria naquela  ocasião.

Liguei, fui pacientemente ouvido e senti, da parte do atendente, um grande cuidado em devolver para meus próprios ouvidos minhas colocações de tal forma, que descobri as impropriedades e absurdos das soluções que eu tramava para libertar-me de desconfortos e incômodos que eu acreditava estar me afligindo.

Bem, o resultado final foi que, sentindo-me aliviado do  “pesadelo”, quis saber de que forma eu poderia ser candidato  a ocupar meu tempo vazio com aquela atividade – atendente do CVV – que fiquei sabendo ser voluntária. Era uma sexta-feira e o atendente indicou-me um PSV (Programa de Seleção de Voluntário) que teria lugar na sede de Blumenáu – SC, no  Bairro da Velha, coincidentemente, no sábado e domingo.

Fui, assimilei e me engajei imediatamente no trabalho proposto. Durante dois meses em Blumenáu,  mais dois anos (2002 e 2003) no posto central do Rio de Janeiro para onde me mudei e, finalmente, de volta à Curitiba, pude atuar ao lado de um telefone, por cerca de  quatro horas, na madrugada, pelo menos uma vez por semana…

Vocês não podem imaginar o quanto aprendi a ouvir,  sem interferir nos dramas e desconfortos de pessoas fragilizadas, e perceber que esta minha postura de apenas devolver a eles seus enunciados, os colocavam de posse de uma auto-reflexão extremamente sadia e tranquilizante. As pessoas falam impropérios e ao perceber que o interlocutor ouve atento, sem críticas ou recomendações, “morde a língua” e passa a ter mais cuidado com o que diz e o que pensa alto.

Nunca soube quantos suicídios pude ou não  evitar mas, o alívio embutido nos efusivos agradecimentos que recebia ao término da absoluta maioria das ligações, foram sempre gratificantes e  mais. Meu relacionamento com qualquer pessoa em torno de mim passou a ser, e ainda é,  grandemente influenciado por este “hábito” de ouvi-la atento, sem lhe oferecer conselhos ou soluções fabricadas.

E, principalmente aqui, no Lar dos Idosos, onde grande parte dos meus 106 companheiros tendem a ignorar ou minimizar  a importância de estar vivo por todos esses sessenta, setenta, oitenta ou mais anos, e agora recebendo atenção, carinho  e assistência de pessoas felizes pela oportunidade de realizar tudo isso, todo o dia para nós, venho aplicando a fórmula de ouvi-los sempre atentamente,  sem dar pitacos.

Tem sido a minha maneira de com eles praticar a…

VALORIZAÇÃO DA VIDA.

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2 respostas para VALORIZAÇÃO DA VIDA…

  1. Ferrari disse:

    Salve campeão… Vida longa e saúde!

  2. Maria Clara disse:

    Seu Jura, dois domingos seguidos sobre um assunto tão, mas tão, tão incômodo! O Desfecho…. após o término da leitura fiquei olhando para a tela – como que OUVINDO… e já que OUVI, bom mesmo e talvez o cerne da questão seja VIVER, VIVER e VIVER… afinal é o que nos compete! E o GRANDE desafio talvez seja: de forma a VALER A PENA…. grata pela coragem desta lição e da sempre FRANQUEZA. Tua amizade tem me firmado nesta perspectiva… me fazendo lembrar a poesia do Gonzaguinha…
    “… viver E NÃO TER VERGONHA DE SER FELIZ!”
    que bom você fazer parte da minha felicidade!

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