UMA MÃO LAVA A OUTRA …

Outro domingo…. Estou “bolado”. Nesta semana determinada pessoa solicitou-me uma “grana” por empréstimo. Tudo bem se não houvesse utilizado o argumento: “sabe né, UMA MÃO LAVA A OUTRA”. Olha este, é possivelmente, o provérbio mais mentiroso que existe. Já repararam? Porque, convenhamos, a equivalência pretendida por quem cunhou a expressão é utópica, ainda mais se tomarmos por referência os fatos do dia a dia, estes que costumam evidenciar que, na verdade, uma mão sempre fica mesmo mais suja do que a outra. O interessante é observar como são as próprias pessoas que gostam de evocar a expressão aquelas que mais expõem a fragilidade da mesma.

Quando, por exemplo, sua namorada se vale do referido ditado para justificar um pedido, de levar (de carro) o rottweiler da avó dela para vacinar às 7h da manhã de um sábado, é quase certo que este favor não terá contrapartida à altura. Bom, talvez só se você estiver com vontade de comer profiteroles no meio de uma madrugada fria e chuvosa, e ela se oferecer para procurar um lugar que venda a sobremesa, aí sim vocês estarão quites. Ou será que não?Imagem

Pois é justo aí que reside uma fonte inesgotável de atrito entre seres humanos, um desafio potencialmente capaz de destruir relacionamentos e causar mágoas permanentes: a ausência de parâmetros para mensurar o valor de um favor prestado. Sim, porque, para um parente abusado, 15 dias de hospedagem em sua casa – com direito a fazer refeições, utilizar toalhas limpas e dormir em cama confortável– podem equivaler ao mesmo que pedir um isqueiro emprestado para um desconhecido numa festa. Quanto ao que se considera ou não favor, cada um tem seus critérios.

Além dos folgados propriamente ditos, existe um perfil um pouco mais difícil de identificar, que é o de quem solicita favores fingindo que não são favores, tudo uma questão de como propor o pedido. É comum que tentem inverter a situação, fazendo parecer que são eles que fazem o favor para você. Pode ser algo do tipo: “tive uma ótima ideia, por que você não prepara um almoço pra gente? O menu pode ser aquela massa que você adora fazer!”. Colocado assim, não me espantaria se o cozinheiro se sentisse na obrigação de agradecer a oportunidade recebida…

Não podemos nos esquecer, é claro, dos chantagistas. Estes atribuem uma carga emocional enorme ao favor que pedem, colocando-se na condição de dependentes da benevolência alheia. Um dos artifícios que empregam é o de maximizar a proporção do que é solicitado, com o intuito de coagir quem vai prestar o favor: “você poderia me fazer um imenso favor, quanto ao qual lhe serei eternamente grato?”. Seja qual for a demanda, acredite, a resposta vai ser positiva.

Há ainda um outro tipo, ardiloso e muito irritante, representado por aquelas pessoa que sabem que estão pedindo um favor chatíssimo, muito embora tentem fazer parecer que não é. A estratégia é minimizar a tarefa, ressaltando benefícios duvidosos em seu cumprimento: “depois de apanhar a segunda via da certidão, reconhecer a firma em cartório, xerocar 30 cópias e enviar para os 30 remetentes dessa lista, você vai ver que passar o dia na rua é muito mais divertido do que ficar trancado aqui no escritório”.

Bom, é provável que as situações ilustradas tenham soado familiares, ou então que se reconheçam pessoas queridas entre os personagens descritos. Neste caso, só cabe um conselho: corra, se acautele, na próxima vez que alguém iniciar uma conversa com a frase: Você sabe que…

UMA MÃO LAVA A OUTRA.

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2 respostas para UMA MÃO LAVA A OUTRA …

  1. Então, tomara esta pessoa tenha recebido só a resposta…E, que seja educativa como deve ser. Abraço. Ferrari.

  2. Maria Clara disse:

    Vale, vale tudo (já dizia o TIM) e a única restrição que ele citava hoje deixou de existir…. portanto pode-se até mesmo doar o empréstimo solicitado… se houver generosidade e condições para tanto….QUALQUER COISA QUE SE FAÇA, OU SE DÊ, na expectativa de retorno…. é ” furada” e chamar as duas mãos – lembrando a necessidade de higiene das mesmas… já é sujeira!
    Não é não, Seu Jura?

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