BOCA MALDITA …

Domingo, 26 de maio de 2013. Temperatura “amena” de 13 gráus, afinal, estou na bela e fria  Curitiba. Para melhor conhecimento dos leitores sôbre a cidade, entrego o link de um post publicado, há 5 anos atrás, por Paulo meu filho americanizado em seu blog “papo de viajante”.

Curitiba possui a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a mais antiga instituição de ensino com concepção de Universidade do Brasil fundada em 1912. Tem também a primeira grande via pública exclusiva para pedestres do país, espaço turístico chamado de “calçadão da Rua das Flores”, com 1 Km de extensão, inserida no início da Rua XV de Novembro, a mais importante e central da cidade.

CalçadaoNo “calçadão” cheio de canteiros de flores em toda sua extensão encontramos uma predominância de endereços comerciais como: lojas de todos os tipos de produtos sendo elas de roupas, calçados, cosmésticos, produtos 1,99, óticas e celulares. Lanchonetes e restaurantes alguns com mesas na própria calçada, prédios com diversos escritórios, agências bancárias, cafeterias e bancas de revistas. O horário que tudo funciona é das 9:00 ás 18:00h.

Sendo considerada a principal artéria de Curitiba, pelos aspectos turísticos e históricos, esta rua é palco de manifestações sócio-políticas, artistas de rua, como palhaços que interagem com os passantes, músicos e homens-estátua. Dentre esses artistas, encontram-se figuras já imortalizadas na cena curitibana, mas que ainda causam riso ou receio de quem não costuma passar por ali. Tais como o Oilman, passa óleo pelo corpo, veste uma sunga e sai andando de bicicleta por toda cidade. O Plá, o “maluco-beleza” curitibano. Compositor, cantor e poeta, estende panos na calçada para as pessoas assinarem, e depois transforma-os em vestes. O palhaço Sombra  que fica imitando os transeuntes, dando sustos, pregando peças. A “Mulher da Cobra” ou “Borboleta 13” que vende bilhetes de loteria. A “Estátua Branca” que com poucos movimentos atrai turistas ganhando o seu sustento. E o “Mineiro do Gato Mia” que bate em uma caixa ou um saco, fingindo que agride um gato que mia sem parar. 

boca maldita

Não podemos esquecer um dos destaques desta rua que é a BOCA MALDITA , um espaço sem área determinada que esta em volta de bancas de jornal, cafés, bancos no calçadão e grandes edifícios antigos (em frente ao Macdonalds). O local é um ponto de encontro de Jornalistas, esportistas, políticos, aposentados e artistas. Eles são chamados de Cavaleiros da Boca Maldita de Curitiba. Se reunem para discutir, criticar e comentar  sobre vdeterminados assuntos, o local expressa às vontades e indignações populares e têm como Lema. “ Nada vejo, nada ouço, nada falo”.

Muito bem. Este é o panorama atual, mas… e antigamente?… Quem nos explicava o quadro do espaço da BOCA MALDITA em épocas anteriores (lá para o início dos anos 50) era nosso companheiro aqui do Recanto, Eugênio Leviski. Nosso amigo com serenidade ímpar, sua marca registrada, nos falava do tempo em que trabalhava como gazeteiro (os “gazeteiros”, como eram chamados, não tinham ponto fixo, perambulando pela cidade com as pilhas de jornais amarradas por uma fita de couro, que carregavam no ombro).

Depois de algum tempo nosso herói, já como jornaleiro, se fixava numa banca de jornais e revistas localizada exatamente ali na BOCA MALDITA. Leitor assíduo dos periódicos que comercializava, detinha considerável acervo de conhecimentos gerais e versava com facilidade sôbre os acontecimentos passados, fossem eles de cunho político, cultural, líricos ou simplesmente engraçados. Conhecia a fundo as origens e raízes da atividade que abraçou.

Certa vez desencavou, para meu conhecimento, uma matéria que guardava de velha publicação com explicações do tipo:

“Gazetta” era o nome da moeda em Veneza, no século XVI. Foi essa palavra que deu origem ao Gazetta Veneta, jornal que circulava na cidade de Veneza no século XVII. Com o tempo, “Gazeta” virou sinônimo de periódico de notícias.
O nome “jornal”, que veio a nomear, depois, o “jornaleiro”, tem sua origem na palavra latina “diurnális”, que se refere a “dia”, “diário” – o que significaria o relato de um dia de atividades.
A palavra “gazeteiro”, que também significa o aluno que costuma “gazetear” as aulas (faltar, sem que os pais soubessem), tem sua origem no jornaleiro, que era chamado de “gazeteiro”. É porque a criançada preferia ficar nas bancas, olhando os jornais e revistas, ao invés de ir para o colégio.

banca de jornalA curiosidade fica por conta do modo como essas primeiras bancas eram montadas, sobre caixotes de madeira, com uma tábua em cima, onde eram acomodados os jornais para serem vendidos. Com o tempo, os caixotes evoluíram para bancas de madeira depois, paulatinamente substituídas pelas bancas de metal – o que perdura até hoje.

Eugênio, sempre solteiro e sem filhos, aportou aqui no Lar dos Idosos em novembro de 2007. Foi num momento em que o alcoolismo tolhia sua capacidade de bem viver porém – dentro desta estrutura edificada com recursos obtidos da sociedade curitibana e contando com os benefícios do calor humano emanado de dedicados funcionários e companheiros – deu a volta por cima e se reconheceu como homem.

Acima exibi destacado o trecho era nosso companheiro aqui do Recanto porque – este nosso dileto parceiro de piadas, conversa mole, assistência às sessões de cinema e memoráveis partidas de “sinuca bola 8”; que até duas semanas atrás manipulava o taco com maestria usando, inclusive, luva na mão direita (uma vez que era canhoto) – na madrugada de ontem, passou para um outro plano existencial. Eugênio Leviski, aos 79 anos e 7 semanas de vida, vitimado por severíssima crise gástrica, faleceu sob os cuidados da equipe medica do CMUM – Cajurú no Bairro do Centenário aqui em Curitiba.

Podemos imaginar para nosso colega um epitáfio como este: Aqui jaz um antigo jornaleiro, que se orgulhava de ter sido um pioneiro, trabalhando numa banca de jornais e revistas na…

… BOCA MALDITA

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3 respostas para BOCA MALDITA …

  1. Amigo Seu Jura! Um belo e divertido modo de fazer um Tur, pelo centro histórico de Curitiba.
    Mais uma postagem como sempre, com a polidez da sua marca registrada. Parabéns!!!

  2. Maria Clara disse:

    Gostei da singeleza do relato, que trouxe também a singeleza e singularidade do Eugênio. que foi dar continuidade a sua jornada em outro Tempo e Dimensão. Teremos muitos outros relatos da Boca Maldita, mas a vista através do olhar e vida do Eugenio, foi possível pela sua capacidade de ouvir e acolher quem está ao lado! Bom isso e para poucos. Abraço.

  3. A.C.Ferrari disse:

    Certamente a convivência com o SR. EUGÊNIO a todos enriqueceu nos dando alegria; este é seguramente mais um guerreiro que fica…
    * Seu Relato é digno de qualquer jornal que respeite o próprio designio. Parabéns. Abraço. Ferrari.

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