ESTOU VIVO E VENDO …

Domingo, 23 de junho início de inverno e 11 dias após minha segunda cirurgia de prótese do quadril em apenas 4 meses. Desta vez trata-se do ajuste e reposição da ligação fêmur e quadril esquerdos. Estou ficando expert nesta espécie de procedimento cirúrgico e, comigo, turmas de ortopedia de quadril da PUC.PR atuando no Hospital Universitário Cajurú, aqui em Curitiba.

Logo os quadris que eu gostaria de poder articular caminhando, vibrando em manifestações populares e reivindicatórias de respeitos à cidadania ou comemorando gols de nossa  seleção futebolística.  Sim,  gostaria e não seria a idade avançada que buscaria usar como freio e desculpas para não me incluir neste maravilhoso momento que o Brasil está vivendo.

Lembro-me bem. O ano era 1957 e eu militava em movimentos de lutas sindicais pelas classes trabalhadoras. Participei da liderança de uma greve que fizemos deflagrar na Cia. Nacional de Tecidos Nova América, em Del Castilho – Guanabara – RJ. Após desligar os motores da sala de tecelagem Mark Sutton (Fábrica Nova), dirigimo-nos ao Sindicato dos Téxteis, na Rua Mariz e Barros, junto à Praça da Bandeira, para ouvir a nova palavra de ordem.

Fui prêso ali e levado aos pátios internos da Rua da Relação, sede da Divisão de Polícia Política e Social, que se incumbia de reprimir as atividades e os militantes do Partido Comunista, assim como na repressão aos sindicatos, entidades, estudantes, artistas e intelectuais. Eu tinha então 21 aos e era, além de trabalhador, estudante.

Lembro-me ainda da  Revolta das Barcas, um levante popular, ocorrido em 22 de maio de 1959 contra o serviço hidroviário na cidade de Niterói, estado do Rio de Janeiro. A revolta, além de 6 mortos e 118 feridos, resultou na depredação e incêndio tanto do patrimônio das barcas quanto da residência da família de empresários que administravam o serviço (o Grupo Carreteiro), e terminou com intervenção federal e estatização das barcas.

À época, bem antes da existência da Ponte Rio-Niterói, o único serviço de transporte entre Niterói (então capital do estado) e Rio (então capital do Brasil) eram as barcas, que levavam aproximadamente 100 mil passageiros por dia (quase metade da população niteroiense de então).

O Grupo Carreteiro, que controlava o serviço, solicitava constantemente apoio financeiro do governo para cobrir os gastos, alegando prejuízo. Porém, o governo negava maiores subsídios sob a acusação do Grupo prestar falsas informações sobre seus gastos, com fortes suspeitas de que a empresa gastava menos da metade do que exigia – suspeitas reforçadas pelas aquisições de fazendas e outros tipos de propriedades pela família Carreteiro, fatos notados pela população.

Somado a isso, as mobilizações sindicais no Brasil que incentivavam trabalhadores e trabalhadoras a se organizar eram crescentes, entre elas o Sindicato dos Marítimos e Operários Navais, que com freqüência paralisava o trabalho – paralisações que eram usadas pelo Grupo Carreteiro como justificativa para novos aumentos tarifários.

WorldCup1962logo

Estou falando de 1957, 1959 e venho lembrar ainda de 1962. A Copa do Mundo FIFA de 1962 foi a sétima edição da Copa do Mundo FIFA de Futebol, que ocorreu de 30 de maio até 17 de junho. O evento foi sediado no Chile, tendo partidas realizadas nas cidades de Arica,  A grande campeã desta copa foi a Seleção Brasileira de Futebol que, como campeã da Copa anterior de 1958, não havia participado das eliminatórias pois já tina vaga garantida. A seleção contou com muitos jogadores da Copa da Suécia, como Gilmar, Djalma Santos, Nílton Santos, Didi, Zagallo, Vavá, Pepe, Zito, Garrincha e Pelé. Na primeira partida do Brasil, o jogador Pelé, que neste ano viria a ser campeão mundial pelo Santos FC, marcou seu primeiro gol, mas se contundiu, não podendo continuar no campeonato; a partir deste ocorrido, muitos dizem que esta foi a “Copa de Garrincha”, considerado pela maioria como o melhor jogador da Copa e o principal responsável pela conquista brasileira.

Estava estabelecida na ocasião a teoria, entre governantes e políticos, de que a paixão pelo futebol neutralizaria quaisquer outros anseios populares. Ao povo não cabia nada mais que observar os acontecimentos que choviam à sua volta.

  • Em 1964 um golpe de estado  derruba o presidente João Goulart eleito democraticamente pelo voto popular e logo após o marechal Castello Branco chefe dos militares golpistas foi eleito presidente pelo Congresso Nacional.

Há cerca de uns quatro anos, já aqui residindo no Lar de Idosos, num dos inúmeros papos entre contemporâneos cidadãos, abordávamos o tema de que o povo, notadamente a juventude não estava nem  aí para os desmandos governamentais e a voracidade das correntes políticas produzindo a elevação de gastos públicos fartamente aplicados em seus conluios.

Afirmávamos mesmo, que os jovens, móbiles à mão atracados às redes sociais e ao mesmo tempo sem educação e cultura adequadas só perdiam em indiferença política, para os “boleiros” e as torcidas fanáticas de futebol que viram o Brasil chegar ao pentacampeonato mundial, quando um dentre nós – otimista incorrigível, agora já em outro plano existencial –  soltou uma premonição do tipo: “Não! Vai chegar uma hora em que o povaréu vai “cagar” pro futebol e gritar pelos seus direitos de cidadão” e concluiu com o profético clichê: “Quem viver verá!”

E eu, leitores, felicíssimo …

ESTOU VIVO E VENDO

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5 respostas para ESTOU VIVO E VENDO …

  1. A.C.Ferrari disse:

    É seu jura se nestes últimos dias a chuva teimosa ofuscou o céu e o sol trazendo umidade e frio; para compensar testemunhamos momentos de extremo calor que marcam positivamente nossa história, afinal nossos iguais [jovens] descobriram o que é ser BRASILEIRO. E, enquanto a chuva não passar, bebamos do sonho destes valorosos rebeldes, se politiqueiros não os reconhecem, nos os amamos… Abraço. Ferrari.

  2. Paulo Moncores disse:

    Fantastico artigo, pai!

  3. Claudir Boni disse:

    OLá seu Jurandir, Tudo bem com o senhor???
    Primeiro quero parabeniza-lo por este post maravilhoso um conteúdo muito bom.
    Bom quero dizer que foi um tempo especial que tive junto ao senhor como parceiro de quarto e juntos pelo mesmo motivo ( cirurgia de quadril esquerdo ). Bem eu estou bem,com uma “digamos” ótima recuperação.
    Como o senhor esta meu amigo???
    Gostaria muito a qualquer hora lhe fazer uma vizita..
    No mais um forte abraço e estou orando para sua perfeita recuparação..
    Att.
    Claudir Boni

    • Obrigado pela atenção a esta meu post. Garoto, um “pequeno” percalço sucedeu após a cirurgia mas as coisas estão se normalizando agora. fico feliz em saber da tua “digamos ótima recuperação”, rsrsrs. No post que publiquei ontem escrevi um pouco sobre avaliações. Com tempo, dê uma olhada.

  4. jurandir gostaria de saber voce tem conhecimento de alquem da familia carreteiro ainda e vivo e onde.moram se consequir essa informação vai lhe render um livro novo.

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