UM HOMEM INCOMUM …

São muitas, inúmeras, visitas de alunos da PUC que vêm aqui no Lar de Idosos para cumprir uma jornada de 36 horas de um projeto comunitário – de vivência em instituições de várias naturezas (casas de apoio, abrigos, hospitais) – incluso em seus currículos escolares. São alunos dos mais variados cursos (direito, jornalismo, publicidade, engenharia, arquitetura, medicina, enfermagem, etc…).  Esta gama de variadas escolhas de futuro, dos visitantes que aqui aportam por 6, 9, 12 dias, são bastante atraentes para minha curiosidade.

Alguns cumprem a jornada solitariamente, outros em dupla, casais envolvidos, e por vezes até em numerosos grupos. Eu busco aproximação pois vejo ali excelente oportunidade de me colocar a par deste universo agora tão estranho e diferente do que pude experimentar em minha época estudantil.

Ontem na troca de papo com um casal estudante de Direito, depois de sugar o relato de suas aspirações e dificuldades, foi a minha vez de despejar  torrentosa cascata de minhas experiências de vida, assim mais ou menos da forma metida a bem humorada que busco utilizar aqui nestas crônicas, fui surpreendido pela  declaração feita por um deles de que eu era UM HOMEM INCOMUM.

Nitidamente o comentário e o rótulo continham uma forma de elogio da parte do estudante porém, creiam, me senti bastante desconfortável.  Não ali naquele momento e sim mais tarde na tradicional hora de levar para a cama à noite o desenrolar dos acontecimentos do dia. Porque incomum?  Se vivo buscando igualdade com meus cento e alguns companheiros moradores desse Lar? Se acreditei ter pautado, a maior parte dos meus atos e atitudes no decorrer das diversas etapas da vida, pela fuga do exibicionismo?

Na verdade circunstâncias diversas me impulsionaram a não esperar para realizar projetos  ou tomar decisões:

  • até que eu terminasse ou voltasse para a faculdade;
  • até eu perder ou ganhar cinco quilos;
  • até o nascimento dos filhos ou então que saissem de casa;
  • até me casar ou me separar… divorciar;
  • até sexta à noite ou segunda de manhã;
  • até comprar um carro ou uma casa nova;
  • até que meu carro ou minha casa tenham sido pagos;
  • até o próximo verão… outono… inverno… primavera;
  • até que eu morra.

Tenho vivido atropelando a vida e sendo por ela atropelado e me cumulando de culpas por atos, no mínimo, desabonadores mas também me regozijando por algumas esparsas vitórias minhas e intensas e constantes de meus filhos.  Só é preciso que se saiba que o regozijo apenas começou a fazer parte do meu quadro e cenário de vida agora, mais recentemente, quando comecei me aperceber da vizinhança da idade etária se elevando.

A idade mental esta, aparentemente, tem-se tornado bem mais em sintonia com a atualidade desse mundo repleto das facilidades de comunicação e informação… para o bem e para o mal. Tenho e venho me agarrando aos links da modernidade assim como os símios se agarram com braços pernas e cauda nos galhos de árvores que o vão amparar… para não caírem estatelados no chão da floresta.

O_pensador_de_rodinTerei me transformado em UM HOMEM INCOMUM, por crer que na minha vida sempre havia um obstáculo no caminho, algo a ser ultrapassado, um trabalho não terminado, uma conta a ser paga e então haver chegado a conclusão de que esses obstáculos eram a minha vida de verdade e, parodiando versos de uma composição de Roberto Carlos, acreditar que “não existe um caminho para a felicidade; a felicidade é o caminho. “

Em minha modéstia (provavelmente falsa) prefiro acreditar que o estudante exagerou mas, senão, meus jovens leitores ficam convidados a refletir e a realizar experimentos por sobre esta linha de tempo que venho vivenciando, enquanto envelheço ao lado de meus parceiros de moradia. Vai que algumas dessas atitudes relatadas possam, na sua idade avançada, resultar em exagerado elogio de alguém da sua atual idade chamando-o de…

UM HOMEM INCOMUM

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