PASSAR DE ANO …

Domingo 26 de janeiro de 2014, um visitante aqui do Lar, já bem meio coroa, conversando comigo coisas tipo “antigamente era assim”, ao saber que já fui professor, abordou a questão das necessidades morais que muitos de nós, alunos, tínhamos de PASSAR DE ANO. Morais sim. Não poderíamos nos dar ao luxo de perder, para aquele super. estudioso metido, as atenções das garotas, a consideração e o respeito dos mestres dos próximos anos letivos.

O que dizer da glória de ouvir nossos pais, tios e avós orgulhosamente comentarem com parentes, amigos e vizinhos nosso sucesso na escola. Isso não tinha preço, era como a propaganda de certo cartão de crédito.  Não ganhávamos necessariamente uma bicicleta, bola oficial ou viagem (celular, tablete e smartphone, claro nem existia na época), pelo fato de PASSAR DE ANO.

Andei saltando de escolas como saltava de endereços mas não sei bem por que, uma das escolas (evidentemente públicas) onde cursei parte do ensino primário nos anos de 1944 e 1945, ficou gravada em minha memória como um marco importantíssimo nessa questão de PASSAR DE ANO. Escola Municipal Pernambuco, no bairro de Maria da Graça no Rio de Janeiro. Foi enquanto ali estudei que meu tio Procópio e meu pai me incutiram a noção e a importância da glória relatada no parágrafo anterior.

Creio que não os desapontei, dali em diante continuei a PASSAR DE ANO em todas as matérias de todas outras escolas em que desfilei toda essa indisfarçável prepotência do cara em busca (sempre) de aprimoramento. “Vai ser besta assim lá longe!”. Então, mais tarde, passei também a lecionar. Enquanto tentava “ensiná-los a aprender” Geografia, História e Ciências Físicas e Naturais, minhas matérias, ia descrevendo minhas experiências e resultados na arte de PASSAR DE ANO sem buscar premiações imediatas e vãos louvores.

Eu os preparava para o famoso Exame de Admissão ao Ginásio. Instituído em 1931 perdurou até o ano de 1971, era o fio da navalha, para os alunos que terminavam o curso primário, que tinha a duração de cinco anos. Terminado o curso primário, se fazia a prova de admissão, para ter acesso ao curso ginasial. Aí não se tratava mais de PASSAR DE ANO e, sim pular para outra fase importantíssima, tipo o que se tenta alcançar hoje em um complicadíssimo vídeo game.

Eram outros tempos. Assim mesmo, nesse cenário hoje improvável, em que a escola pública era mais forte, mais amada e mais desejada que a escola particular, hordas de crianças impúberes atravessavam essa fase difícil de autoafirmação convivendo com a ansiedade de quem se vê no limiar de uma reprovação. Notícias estranhas, provavelmente inventadas, entreouvidas minutos antes do exame, pintavam de tons ainda mais sombrios essa insegurança:

Dizem que uma turma de alunos entrou na sala dos professores de madrugada e encontrou no cesto de lixo o estêncil do mimeógrafo com todas as questões da prova”. Só não é terrível para quem não é do tempo em que se usavam estêncil, mimeógrafo e rituais pavorosos de passagem entre a infância e a adolescência.

Por pura questão de empatia eu me colocava no lugar onde estavam e onde estive quando aluno. Lembrei de alguns de meus mestres e conclui que o entusiasmo do professor dentro de sala de aula é um fator muito importante, uma vez que a alegria dele pode contagiar toda a turma, tornando a aula mais alegre e dinâmica. A função do professor é formar cidadãos capazes de entender o mundo que os cerca, e aos alunos cabe a função de entender e compreender tudo que lhe é passado.

E aqui no Lar dos Idosos onde habita mais de uma centena de companheiros que, como eu próprio, estamos nem aí para esse babado! Não nos cabe necessariamente aprimorar matérias como português, matemática, ciências e geografia para PASSAR DE ANO. História ainda vá lá! Eu, pessoalmente acho que existe apenas uma disciplina, que não deveria ser negligenciada por nenhum de nós.

O VELHO FUSCA

O VERLHO FUSCA

Estamos vivos, uns com dificuldade e até impossibilidade de se locomover, ouvir, enxergar e até de pensar, porém, como já disse em “post” anterior, todos são capazes de sentir.  Isto requer, exige mesmo, uma reflexão e uma crença de que nosso corpo não atua sozinho, se este corpo repleto de imperfeiçoes, limitações e padecendo de desgastes crônicos, como se fora um antigo e maltratado Fusca, se move e sente, então há que haver na direção deste corpo um espírito como se fora o motorista que liga e dá partida no velho veículo.

Acredito que seria espetacular a difusão da disciplina “espiritualidade” no “sentir” de cada um de nós para nos ajudar na condição irreversível do …

PASSAR DE ANO

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5 respostas para PASSAR DE ANO …

  1. Esta comparação com o Velho Fusca só me faz ter a certeza que neste corpo que estou usando existe um “motorista”…Ou melhor, que este motorista(espírito imortal que sou) esta usando este Velho Fusca (corpo que está envelhecendo)….E, como com o Fusca, que uma hora não vai mais pegar, não vai mais andar, este corpito também se transformará… Mas os motoristas do Fusca e do meu corpo não deixarão de ser Motorista do Fusca e Espírito Imortal… Beijo no seu coração Mano Jura!!!

  2. Ah seu Jura!!! Com este belíssimo e cronicado relato “Passar de ano” Você me faz regressar ao passado, e reviver belas e saudosas histórias na luta por passar de ano. Obrigado por mais uma vez poder desfrutar de uma belíssima obra sua. Grande abraço…

  3. Robson Wagner de Souza disse:

    Também na ajuda de “PASSAR DE VIDAS”.

  4. MARCIA disse:

    LINDO….COMO DISSE O NOSSO AMIGO PAULO ,OBRIGADA POR MAIS UMA VEZ PODER DESFRUTAR DE SEUS CONHECIMENTOS BJS

  5. A.C.Ferrari disse:

    Então bom amigo; a projeção e até fixação pelo amanhã faz a quase todos, seres descontentes com a própria vida desconsiderando que este é seu maior tesouro. Que bom quando testemunhamos o contrário; e, vemos gente zelosa e amante desta riqueza. Parabéns. Abraço. Ferrari.

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