NÃO QUER VER …

Hoje é domingo, quatro de maio de 2014.  Minha neta Giovanna está completando nesta data seus 19 aninhos. Se fosse aqui no Brasil, o acontecimento ficaria por conta do trivial, mas lá onde ela vem residindo, em Houston – Texas – EUA, chegar a esta idade pode significar que a jovem já está com ingresso marcado para a Faculdade e que, por tal, deverá substituir sua residência com os pais, para outra onde dependerá de sua própria autonomia.

É justamente o que está acontecendo com a Gio. A menininha nascida aqui em Curitiba no ano de 1995, em dezembro de 2005, imigrou com pais e irmã para a terra do Tio Sam. Então a garotinha de dez anos, americanizou-se juntamente com toda sua pequena família de IMIGRANTES adaptando-se a um novo estilo de vida e conceituação de valores.

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Já por aqui a coisa está feia!  Difícil se enxergar valores!  Esta semana observei no painel do Netflix — onde venho pegando carona e dividindo com Pedro (o tio dela) e seus outros dependentes, dentre os filmes mais recentemente vistos -– O “Ensaio Sôbre a Cegueira”.

Caramba!  Fui projetado ao período de 4 anos, entre 2003 e 2006, quando viajava semanalmente de Balneário Camboriú para Curitiba, em razão de estar lá morando e aqui trabalhando como Analista de Sistemas. Meu livro de bordo em cada uma das duas horas de viagem tinha exatamente esse título, obra do escritor e pensador português José Saramago.

Provavelmente, o filme (que ainda não assisti) trata-se de um versão cinematográfica do livro.  Um livro francamente terrível com o qual o leitor sofre inexoravelmente. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e absorvê-lo foi uma das experiências mais angustiantes que senti. São 300 páginas de constante aflição. Através da leitura o autor nos faz acreditar que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso.

Uma cegueira epidêmica começa num único homem, durante a sua rotina habitual. Quando está sentado no semáforo, este homem tem um ataque de cegueira, e é aí, com as pessoas que correm em seu socorro que uma cadeia sucessiva de cegueira se forma… Uma cegueira, branca, como um mar de leite e jamais conhecida, alastra-se rapidamente.

Depressa o mundo se torna cego, onde apenas uma mulher, misteriosa e secretamente manterá a sua visão, enfrentando todos os horrores que serão causados, presenciando visualmente todos os sentimentos que se desenrolam na obra: poder, obediência, ganância, carinho, desejo, vergonha; dominadores, dominados, subjugadores e subjugados.

Não se afigura a distinção de personagens pelos seus nomes, mas sim pelas suas características e particularidades. Entre os personagens principais, temos o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, o médico, a mulher do médico (que vê, mais ninguém sabe disso), a rapariga dos óculos escuros, o velho com a venda no olho e o rapazinho estrábico.

Ao conseguir finalmente sair de um antigo hospício onde o governo pusera o seu grupo em quarentena, a mulher que vê depara-se com a ausência de guarda: “a cidade estava toda infectada”; cadáveres, lixo, detritos, todo o tipo de sujidade e imundice se instalara pela cidade.

Os cegos passaram a seguir os seus instintos animais, e sobreviviam como nômades, instalando-se em lojas ou casas desconhecidas. A obra acaba quando subitamente, exatamente pela ordem de contágio, o mundo cego dá lugar ao mundo imundo e bárbaro. No entanto, as memórias e rastros não se desvanecem.

Ao relembrar essa triste e fantasmagórica história de ficção, passei a olhar para nós aqui do Lar dos Idosos e pude perceber o quanto somos cegos: a) em não perceber as desditas de uns e outros; b) mal enxergar o desvelo e dedicação da maioria dos funcionários que nos atendem  e c) nos entregarmos a alguns desvarios que acabam se tornando consequentes e recorrentes.  Isso faz-me lembrar o velho ditado, legado do meu avô e disseminado dentre meu pai e seus irmãos “mineirinhos” para nós seus filhos: “O PIOR CEGO É AQUELE QUE …

NÃO QUER VER”.

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2 respostas para NÃO QUER VER …

  1. Pedro Monçores disse:

    A proposta do filme é mesmo reproduzir o livro, com a direção de Fernando Meireles, e repassar essa brutalidade toda e o nível que o ser humano chega. Acredito que no livro foi mais coerente, porque o filme fica um pouco sem pé nem cabeça. Falow.

  2. A.C.Ferrari disse:

    Embora o modelo proposto pelo dito social, seja do homem guerreiro em busca do poder sob qualquer coisa, ainda temos os resistentes que preferem mostrar sua essência amorosa; o que seria da arte e do amor se diferente fosse. É sábio declinar de uma posição, quanto isso é pelo todo. Parabéns pela família, parabéns para sua netinha. Saúde, paz e amor. Abraço. Ferrari.

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