VELHOS GURIS…

Domingo, 21 de maio de 2017. Ontem comemorou-se também aqui no Brasil o Dia Inernacional do Técnico e Auxiliar de Enfermagem, em referência a Ana Néri, primeira enfermeira brasileira a se alistar voluntariamente em combates militares.  Nesta oportunidade parabenizo  este ilustre grupo de ativistas do bem, notadamente os membros providencialmente infiltrados aqui em nosso Lar de Idosos. Vida longa para vocês.

O senhor é carioca, não é?  Os visitantes daqui do Lar, invariavelmente me perguntam porque, apesar dos 30 anos que me encontro aqui no sul do Brasil, não consigo me desvencilhar do sotaque e maneiras que povoaram meus cinquenta primeiros anos de vida.  Em 1986 quando cheguei por aqui também pude estranhar um pouco as maneiras e o jeitão sulino das pessoas se comunicarem.  Lembro por exemplo de uma cliente de informática, com seu jeito “gauches” ordenar ao seu office boy —  “guri, vai comprar vina para pôr no pão” – e o rapaz voltou com salsichas para rechear uns hot dogs que preparava para o lanche.

“Vina”, mais tarde vim a saber, era a salsicha e “guri” um termo adotado no estado brasileiro do Rio Grande do Sul como sinônimo de “menino“, “moleque”, “criança” ou “rapaz”.e que assim como várias outras palavras, fazem parte do dialeto do gaúcho, indivíduo natural dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e parte do Paraná, .Só  assim, pude entender melhor a razão de terem batizado o conjunto musical daqui do  Lar como sendo “Os VELHOS GURIS” como forma de jovializar o trabalho dos senhores integrantes.

Para quem pensa que a vida em um lar de idosos é monótona e se resume a esperar o tempo passar, ledo engano. O Lar dos Idosos Recanto do Tarumã traz aos seus moradores novas oportunidades.   Uma experiência que tem animado a turma do Lar é um projeto musical desenvolvido pela musico terapeuta Claudimara Zanchetta que foi além e criou um novo ritmo para o Recanto. — Em 2004, o grupo de samba inicialmente composto por quatro integrantes gravou seu primeiro CD.  — Em 2011 lançou seu segundo álbum graças a um prêmio de R$ 20 mil recebido em uma das apresentações do grupo que, além de shows, já participou de programas de TV.

Seu Odamir Bartholomeu, 80 anos, é vocalista e também idealizador do grupo. Conta que, aos oitos anos, sem dinheiro para comprar o ingresso das apresentações, pediu para trabalhar no Circo Belarmino & Gabriela, onde começou vendendo balas. Quando a trupe foi embora do bairro Portão, pediu para ir junto e a mãe permitiu.  Em suas próprias palavras, nunca mais largou a vida artística. Aos 18 anos prestou o serviço militar, fez curso de eletrônica por correspondência, mas a boemia falou mais alto. Ficou conhecido como Tuca do Pandeiro, fazia bicos como técnico eletrônico consertando os equipamentos das bandas. O samba sempre foi a sua cachaça.

Seu Tuca teve uma filha, fruto de um casamento que não deu certo. Depois de muitos anos sem contato, a filha o reencontrou quando viu uma matéria na televisão sobre os VELHOS GURIS  do Asilo.  Ficou feliz porque a filha não guardou mágoas, convive com ela e com os netos, mas não pretende morar com eles.  Para Tuca, o Lar oferece tudo o que ele precisa: “Não vejo motivos para sair daqui. Sou bem tratado, ajudo meus colegas como posso e tenho meus amigos sempre por perto – o que mais poderia pedir?”.

O grupo tem tido várias formações e, em uma delas, até o cronista aqui exibiu seus “dotes musicais”, antes da imobilização. Época em que ainda não necessitava dos banhos e trocas de fralda junto com a turma de dependentes.  Sabem, aqueles que — tais meninos (guris) — precisam do auxílio para sua higiene, limpeza, as vezes alimentação, proporcionados pelas nossas indispensáveis, cordatas, dedicadas e maravilhosas “ocupantes do papel temporário de mães”  de que lhes falei na crônica anterior.

A questão é que não somente eles, mais todos os moradores permutaram há muito suas condições de Idosos para as de frágeis meninos nas mãos de todos (as) vocês funcionários da Casa.  Acreditem: Somos muito agradecidos  aos cuidados zelosamente dispensados a nós outros…

VELHOS GURIS.

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3 respostas para VELHOS GURIS…

  1. Você me faz chorar com este teu jeito de escrever…Somando, que hoje estou meio sensível…

  2. Pedro Monçores disse:

    Homenagem bacana às enfermeiras e aos músicos!!!!

  3. Republicou isso em Espaço de Jurandyr e comentando:
    20 de maio de 2019. Hoje é Dia Internacional do Técnico e Auxiliar de Enfermagem, pessoal maravilhoso de quem temos o prazer e o orgulho de sermos inteiramente dependentes. Aí decidi “reblogar” uma outra crônica produzida por mim há dois anos atrás, enquanto os saúdo!!!

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