CARTA AOS FILHOS…

Domingo, 24 de Junho de 2018.  Fiquem frios meus leitores.  Apesar do título proposto para o tema de hoje, não estou pretendendo, ainda, editar por aqui o meu pré-epitáfio. A ideia do título me surgiu em decorrência do tal hábito de leitura que vos mencionei à duas semanas quando escrevi A METAMORFOSE  aqui neste  mesmo espaço.

Dentre os leitores, uma amiga (quase filha) em particular, parabenizou-me pela escolha da obra e do autor e sugeriu-me até outras duas que, obedientemente, fui catar na fonte e as trouxe… e até li uma delas. Esta segunda obra de Franz Kafka, com sugestivo nome de “Carta Ao Pai”, me lançou em um revolto mar de reflexões. Obrigado, Fabiana!

Tenho exercido essa atividade, de ser pai, há 50 anos, sinceramente e modéstia parte, me acho bem distante daquilo que teria sido o pai daquele escritor.  Não me envaideço sinto-me  antes gratificado pelo não suprimento de uma índole tão avassaladora como a do pai daquele autor… pelo menos no trecho em que ele escreveu para o velho…

Carta ao Pai”Todas aquelas idéias na aparência independentes de você estavam desde o início gravadas pelo seu juízo desfavorável: suportar isso até a exposição completa e duradoura do pensamento era quase impossível. Não falo aqui de pensamentos elevados de qualquer natureza, mas de todos os pequenos empreendimentos da infância. Bastava estar feliz com alguma coisa, ficar com a alma plena, chegar em casa e expressá-la, para que a resposta fosse um suspiro irônico, um meneio de cabeça, o bater do dedo sobre a mesa: “Já vi coisa melhor”, ou “Para mim você vem contar isso?”, ou “Minha cabeça não é tão fresca quanto a sua”, ou “Dá para comprar alguma coisa com isso?”, ou “Mas que acontecimento!”. Naturalmente não se podia exigir de você entusiasmo por qualquer ninharia de criança, vivendo como vivia, cheio de preocupação e trabalho pesado. Nem era disso que se tratava. Pelo contrário, tratava-se do fato de que você precisava causar essas decepções ao filho, sempre e por princípio, graças ao seu ser contraditório”.

Respondida as dúvidas que ficaram  em Metamorfose: Porquê Gregor Sansa virou, logo um inseto e porque bombardeado por maçãs paternas!

Agora voltando à crônica: Quando acima afirmei que a obra de Kafka me lançou em revolto mar de reflexões foi por que ao atirar-me em sua leitura, havia abandonado mui recentemente outra superdensa, que fazia fervilhar (ainda está fazendo) minha cuca de ancião aposentado, institucionalizado, acomodado.

Imaginem vocês, os que conhecem, que eu estava devidamente atônito com o que vinha suportando, desenlaçando e buscando equilíbrio durante o exercício de ler a obra “Assim Falou Zaratustra” de Nietzsche…

Para os que não conhecem a obra e o autor, só sei dizer que o cara me fez ter a sensação de estar lendo uma Bíblia de ponta cabeça… Metáforas, aforismos mesclados à ironias e paradoxos incessantes me conduzindo para o tudo e para o nada, simultaneamente.

Zaratustra é o personagem protagonista que o autor nos apresenta como um detentor de imensa e desmedida sabedoria a respeito de homens. No seu entorno, adeptos ouvintes seguidores fazem o papel de coadjuvantes sendo na direção e aos ouvidos deles que as máximas são dirigidas e, a nós os leitores, cabe a tarefa de analisar cada uma delas ou seu sentido global.

Não sei o número de páginas que cheguei a ler uma vez que meu equipamento eletrônico de leitura, não exibe o número da página que você está lendo por motivos óbvios, pois dentre outras “mordomias” ele permite a mudança escalonada do tamanho das letras do texto criando páginas mais ou menos numerosas. Porém informa o percentual da leitura vencida até ali.

Atingi 45 % (quase a metade da obra) quando conclui sua Segunda Parte, na fase em que o autor faz desfilar os  “ensinamentos” de seu protagonista  aos seus seguidores e, claro consequentemente aos leitores, relativamente a diversas questões das coisas, da gente, das situações, dos locais e ações da  humanidade.

Por exemplo, tratando-se Da circunspecção humana:

250px-Nietzsche187a“Não é a altura que aterroriza: o que aterroriza é o declive! O declive donde o olhar se precipita para o fundo, e a mão se estende para o cume. É aqui que se apodera do coração a vertigem da sua dupla vontade.

Ai, meus  amigos! Adivinhais a dupla vontade do meu coração? Vede, vede, qual é meu declive e o meu perigo; o meu olhar precipita-se para o cume, enquanto a minha mão quereria fincar-se e aparar-se… No abismo!

Ao homem se me aferra a vontade, ao homem me prendo com cadeias, enquanto do alto me atrai o Super-homem, porque para lá quer ir a minha outra vontade. E por isso vivo cego entre os homens, como se não os conhecesse; para a minha mão não perder inteiramente a sua fé nas coisas sólidas.

Mas a vós outros, irmãos e próximos meus, quero-vos ver disfarçados e bem adornados, e vaidosos, e dignos, com os “bons e os justos”. E disfarçado quer eu estar também entre vós para vos desconhecer e desconhecer-me a mim mesmo; porque esta é a minha última circunspecção humana.

Assim falou Zaratustra.”

Complicado tudo isto, não? Agora sinto-me em pleno abismo, planando e volitando como folha seca ao sabor do caprichoso vento aguardando o impacto final: a) chafurdada num pantanoso terreno; b) mergulhada em um lago ou oceano e devorada por um peixe míope; ou  c) flagelada pelas chamas de um incêndio florestal (improvável)… Vai saber!

De volta aqui à minha crônica. Não sei se consegui pelo menos estar perto dessa minha intenção de fazer chegar ao meu leitor, principalmente meus filhos, as razões que eu teria para entregar tal testemunho de que a vida é para ser vivida, enquanto não se é idoso, da maneira, nos lugares e com pessoas, “servidas” para cada um de nós pelo sistema administrado pelo Criador. Para sermos bem “servidos”, tal sistema exige apenas que também sempre estejamos predispostos a servir.

Diferentes entre si como os autores aqui citados, meus dois filhos sendo um meio pródigo e viajor inveterado e outro mais pra “tamo junto” comigo e a mãe. Deles espero que nenhum, tenha sofrido em alguma época a síndrome do Kafka ou a possessão do conhecimento de Nietzsche… espero.

Perceberam que mergulhar em causas complicadas e de difíceis percepções não é mister para quem ainda não envelheceu e encostou? Sinto-me feliz por estar fazendo isso só agora e sugiro a vocês:

Não se deixem embriagar, se drogar, ser atraídos(as) por doutrinações complexas e se desinteressar pela vida, busquem chegar aos 80, como eu, lúcidos, ouvintes, se possível enxergando alguma coisa e, aí sim, podem-se aprofundar em filosofias ricas ou banais sem medo de ser feliz. Ai então, bem, façam uma…

CARTA AOS FILHOS.

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