GUERREIRO MENINO…

Domingo 17 de fevereiro de 2019.  Nosso Lar é realmente de idosos, isto é, os moradores são todos do sexo masculino e se comportam em sua maioria como “meninos”. Frisei ironicamente com a intenção de vestir a nós todos com a roupagem mais adequada ao assunto que estou tentando abordar neste texto.

 Ontem ouvia meu som noturno e uma composição de Gonzaguinha, me arremessou a este assunto. Foi em 1983 que o compositor nos brindou com GUERREIRO MENINO (Um Homem Também Chora) Ele desenhou o homem urbano vitimizado – coitadinho – de forma magistral… e malandra!,

 Solta o som:

Um homem também chora, menina morena
Também deseja colo, palavras amenas
Precisa de carinho, precisa de ternura
Precisa de um abraço da própria candura
Guerreiros são pessoas tão fortes, tão frágeis
Guerreiros são meninos no fundo do peito
Precisam de um descanso, precisam de um remanso
Precisam de um sono que os torne refeitos
É triste ver esse homem, guerreiro, menino
Com a barra de seu tempo por sobre seus ombros
Eu vejo que ele berra, eu vejo que ele sangra
A dor que tem no peito, pois ama e ama
O homem…

criançasTodos sabemos que menino – desde a mais tenra idade e na maioria dos casos – é criado sob mimos e proteção cerrada, principalmente por atrizes sociais do sexo oposto. Mãe, irmãs (notadamente as mais velhas), avós, tias e no curso do aumento da idade passam a contar também  com as namoradinhas, namoradonas, noivas, esposas e outras doces representantes do chamado “sexo frágil” e, torna-se “viciado em ser menino” pelo resto da vida… Claro existem exceções, mas não muitas.

Ficamos idosos e, em razão dos mimos excessivos recebidos, passamos a ser escravos do tal “vicio”… E as mulheres, leitoras da mesma cartilha, vêm se ajustando e sujeitando aos costumes… até agora.

Moro aqui há pouco mais de dez anos, logo após me aposentar na profissão de analista de sistemas, que exerci durante três décadas e meia. Não consegui me desvencilhar do hábito de analisar pessoas e  métodos de ação, por isso, e por pura distração, vivo observando os processos que utilizamos – nós moradores – no dia a dia da Instituição.

Já disse antes por aqui, a maioria, quase totalidade  das pessoas que nos atendem, servem e orientam, são do sexo feminino. Maduras, jovens senhoras, mulheres ou simples meninas que em suas moradias aí fora dos muros – muitas vezes em longa distância – foram ou ainda são avós, mães, irmãs, tias, esposas, namoradas e amigas de “meninos”… todas leitoras da cartilha a que me referi acima.

Por outro lado a  tribo de moradores que encontrei por aqui e com quem venho convivendo a maior parte desse tempo é composta na maioria de homens de noventa, oitenta, setenta e pouquíssimos na faixa dos  sessenta anos… até agora.

Realmente idosos, bem combalidos e derrubados pela idade, alguns já mutilados no físico e na cognição, quando recebiam – e ainda recebem – “o colo e a ternura” enunciada e pleiteada na canção, quedam-se calminhos e serenos em direção “ao descanso, ao remanso e ao sono que os tornam refeitos”.

Mas os tempos andam mudados. A sociedade parece tão sobrecarregada de seus próprios pecados e desmandos, que vem alimentando de forma avassaladora uma luta constante em favor dos “direitos humanos”.  Aí certos algozes se transformam em vítimas,  precisam e utilizam ter a proteção e o amparo de, digamos “Ministérios Públicos”.

Ignora-se o fato de que a medicina e a tecnologia têm carregado a idosa idade para limites mais elevados e que um homem na faixa de sessenta anos está ainda apto a buscar e encontrar suas próprias soluções e recursos de sobrevivência,  de atividade e lazer, sem dependências e amparos do Estado e da própria Sociedade.

Eu –  provavelmente eivado de despeito,  debaixo de meus oitenta anos –  me imagino ainda com sessenta e poucos: a)  fazendo-me de truculento, malcriado e “macho”; b) ou então com voz empostada, cheio de presença e  “espaçoso”;  c) por que não, desfilando com pinta e atividade de esportista; d) manhoso, dissimulado e vitimizado e… Ainda por cima podendo entrar e sair dos muros da instituição quando bem entender para encontrar com seja lá quem for.

Acho então que não me importaria nem um pouco de turvar a rotina de qualquer ILPI (Instituto de Longa Permanência para Idosos) com toda minha malandragem; adotaria uma cadeira de rodas por algum tempo; sugeriria a ação constante de profissionais ou aprendizes da enfermagem na avaliação de meus sinais vitais e passaria a exigir  os direitos de incorporação ao protagonista da canção do Gonzaguinha e ser respeitosamente chamado e tratado como um…

…”GUERREIRO MENINO”.

P.S. GENTE, NÃO SE TOLHAM DE EMITIR COMENTÁRIOS E OPINIÕES.

Esse post foi publicado em CRÕNICAS DE UM IDOSO. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para GUERREIRO MENINO…

  1. Robson Wagner de Souza disse:

    Posso traduzir como saudade… Ou caso esteja errado: Vontade!

    No caso do segundo chute… Preciso de revisor literário, que assuam o risco de receber, somente com as vendas de novas publicações. Também como, profissional da área de informática, que possa fazer enquadramento das folhas do Word para editoração grátis da Amazon.

    A proposta é uma parceria lucrativa… se não financeira, talvez na ocupação do tempo, e quem sabe daqui algum tempo, esse tempo valha a pena para alguma coisa.

    “Joaquim Cardozo foi o engenheiro responsável pelos cálculos que permitiram a construção dos mais importantes monumentos de Brasília e do Conjunto Arquitetônico da Pampulha. Todos projetados por Oscar Niemeyer, que classificou Cardozo como “o brasileiro mais culto que existia”.

    Longe de mim realizar, obras arquitetônicas icônicas de Oscar… Me basta traçar uma “casinha branca de varanda…”.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s