MADRUGADA INSONE…

Quinta-feira 05 de setembro de 2019. Duas e quinze, busco sob as cobertas e atrás da cama e não o encontro. Que é de meu sono? Como compensar sua perda? Sei lá! Tiro da gaveta o Kindle Paperwhite em busca de ajuda e vou ler. De novo  Sêneca,  agora em “Edificar-se para a morte: Das cartas Morais de Lucílio”.

 

Ao ler tais cartas, me coloco ainda jovem sendo Lucílio o destinatário, discípulo e pupilo do filósofo mas, ao mesmo tempo me sinto o próprio Sêneca, o missivista, ao enunciar em sua epístola 61, da obra:

Antes da velhice, cuidei de viver bem. Na velhice, de que eu morra bem. Ora, morrer bem é morrer de bom grado, adequar-se às circunstâncias voluntariamente é atitude de quem alcançou a harmonia do espírito e está preparado para a morte. Para Sêneca, aceitação é libertação.”

E então, dando curso à missiva,  propriamente dita.:

1 Deixemos de desejar o que no passado desejamos! Eu, certamente, estou fazendo isso para que não deseje, já idoso, o mesmo que desejei menino. Só nisso se vão meus dias. Só nisso, minhas noites. Esta é minha tarefa, esta reflexão: pôr fim a antigos vícios. Faço isso para que meu dia tenha o valor de toda uma vida. E – Por Hércules! – não o tomo como o último, mas o encaro como podendo muito bem ser o último.
2  É com este espírito que te escrevo esta carta, admitindo que a morte possa me chamar exatamente enquanto a escrevo. Estou preparado para partir e posso desfrutar a vida justamente pelo fato que não fico dependendo demais do quanto possa durar esse futuro. Antes da velhice, cuidei de viver bem. Na velhice, de que eu morra bem. Ora, morrer bem é morrer de bom grado.
3  Presta atenção para que nunca faças algo contrariado. Tudo que for inevitável a quem costuma recursar-se não é inevitável a quem aceita. É isso que eu digo, quem recebe ordens de bom grado, escapa da parte mais amarga da escravidão: fazer o que não quer. Não é desafortunado quem faz algo obrigado, mas quem o faz contrariado. Desse modo, devemos pôr em harmonia nosso espírito para que desejemos o que as circunstâncias exigirem de nós e, acima de tudo, para que reflitamos, sem tristeza, sobre o nosso fim.
4  Devemos nos preparar mais para a morte do que para a vida. É suficiente o que a vida nos oferece, mas ficamos ávidos por suas dádivas: parece que nos falta algo e vai parecer sempre. Não são nem anos nem dias que garantem termos vivido o suficiente, mas nosso espírito. Vivi o suficiente, caríssimo Lucílio. Satisfeito, espero pela morte.

Afinal, leitores se formos considerar minha idosa idade plantada em uma instituição de longa permanência; em fins de inverno e como já disse antes; desprovido de razões e equipamento para encetar arroubos deliciosamente juvenis, acho que acabei de encontrar fórmula para a minimização dos desconfortos de uma…

MADRUGADA INSONE

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