SOBRE A MORTE…

Segunda feira, 28 de outubro de 2019. Como já tenho descrito em crônicas anteriores, tenho cultivado e exacerbado o hábito de leituras noturnas, sobretudo obras de filósofos das antigas com Marco Aurélio, Epiteto e Sêneca. Deste último ressalto um livro em que o próprio título e subtítulo na capa, revela as intenções do Pensador de passar a um certo discípulo, informações importantes através de cartas.

SÉNECAEm “Edificar-se para a morte”  – Das cartas morais a Lucílio – Sêneca transfere para mim, seu leitor, reflexões bem interessantes se eu me colocar na posição de “Lucílio” e, principalmente se levar em consideração minha idade e condição atual. Sugiro a vocês, meus leitores de mais idade, que pode ser interessante e proveitoso embarcar nesta canoa de reflexões.

Parece lúgubre pairar sobre assunto de tão mórbida conceituação, mas, havemos de convir, a morte é imprevista e inevitável para todos, então por que temer falar e pensar nela e ou sobre ela. Convido-os a “navegar” comigo em uma dessas cartas (epístolas) do Pensador.

SÊNECA – EPÍSTOLA 26.
“Quem aprendeu a morrer desaprendeu a servir: Está acima de toda autoridade, pelo menos fora do alcance dela”.

1 Não faz muito, eu te dizia estar na presença da velhice já temo ter deixado a velhice para trás. Em relação a estes meus anos – pelo menos, a este meu corpo – já convém usar outro termo posto que “velhice” é o nome que se dá, de fato, à idade avançada, não à idade crítica: inclui-me entre os decrépitos e que estão atingindo a hora final.

2  Contudo, a ti eu falo que dou graças a mim mesmo: não sinto no espírito o dissabor da idade, embora o sinta no corpo. Apenas envelheceram meus vícios e o que estava a serviço desses vícios. Meu espírito está vigoroso e se rejubila de não ter muito a ver com este corpo: despojou-se da maior parte do seu fardo. Ele exulta e cria controvérsias comigo sobre a velhice, diz que ela é a sua fina flor. Devemos dar-lhe crédito, que ele desfrute do bem que possui.

3  Ele manda que eu me volte à reflexão e que reconheça o que é que devo à sabedoria por esta tranquilidade e moderação de hábitos, o que é que devo à minha idade; que eu examine cuidadosamente as coisas que não posso fazer, as coisas que não quero fazer, dispondo-me, desse modo, a tomar como se eu não quisesse fazer o que me rejubila não poder fazer. De fato, qual a lamúria, qual o incômodo, se o que devia acabar desapareceu?

4 Dizes: “É extremamente incômodo ir se consumindo, se desfazendo, para dizer a verdade, se liquefazendo. De fato, não recebemos subitamente um golpe que nos prostrou. Vamos sendo colhidos: cada um dos dias subtrai um pouco de nossas forças”. E há saída melhor do que ir se esvaindo até o próprio fim enquanto a natureza está nos libertando? Não que haja algum mal num golpe e numa partida repentina da vida, mas é que esta via, a de ir sumindo, é amena. Eu, pelo menos, como se a experiência se aproximasse e tivesse chegado aquele dia que dará a sentença acerca dos meus anos todos de vida, assim me fiscalizo e falo comigo:

5  “Não significa nada o que eu até aqui demonstrei com atos e palavras. São penhores levianos e falaciosos do espírito, e envoltos em muitos artifícios. Se houve algum progresso, é à morte que hei de creditá-lo. Desse modo, preparo-me sem medo para aquele dia no qual, removidos adornos e disfarces, hei de julgar a mim mesmo: se só falo da coragem ou se a tenho mesmo, se foram simulação e encenação todas as palavras contumazes que lancei contra a fortuna”.

6  “Descarta a opinião das pessoas: é sempre duvidosa e se divide em dois lados. Descarta os estudos elaborados numa vida inteira: a morte há de se pronunciar a teu respeito. O que estou dizendo é que debates filosóficos e colóquios literários e palavras coletadas dos preceitos dos sábios e a conversa erudita não revelam a verdadeira firmeza espiritual. De fato, até os muito covardes fazem um discurso ousado. O que tiveres realizado só ficará aparente quando exalares a anima. Aceito esta condição, não me amedronto com o julgamento.

7 Falo essas coisas comigo mesmo, mas considera que falei também contigo. És mais jovem – que importa? Não se ficam contando os anos. É incerto em que lugar te aguarda a morte. Desse modo, aguarda tu por ela em todo lugar.

8 Eu queria já terminar e minha mão estava de olho na linha final, mas é preciso preparar o dinheiro e dar a esta carta o seu viático. Suponha que eu não diga de onde virá o empréstimo: sabes de que caixa eu vou sacar. Espera só um pouco por mim e o numerário será doméstico. Nesse meio-tempo, vai nos prestar o serviço Epicuro, que diz: “Medita sobre a morte”. Ou, se o sentido pode assim ficar mais claro para nós: “É muito importante aprender com a morte”.

9 Talvez julgues supérfluo aprender algo que só precisa ser usado uma vez. É justamente por isso que devemos meditar: sempre é preciso aprender aquilo que não temos como testar se sabemos.

10 “Medita sobre a morte”. Quem diz isso está nos mandando meditar sobre a liberdade. Quem aprendeu a morrer desaprendeu a servir: está acima de toda autoridade, pelo menos, fora do alcance dela. Que lhe importa o cárcere e a prisão e o confinamento? Tem uma porta aberta. Só uma corrente nos mantém atados: amor à vida, que não é preciso abandonar, mas reduzir, para que, se a situação em algum momento exigir, nada nos detenha ou impeça de estarmos preparados a fazer imediatamente o que mais cedo ou mais tarde deve ser feito.

Tais colocações me deixam bem mais tranquilo em relação ao tempo em que tenho vivido aqui, nesta instituição de acolhimento para idoso, e me coloca à vontade para falar,  discorrer e refletir…

SOBRE A MORTE,

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Uma resposta para SOBRE A MORTE…

  1. Republicou isso em Espaço de Jurandyre comentado:

    Domingo, 28 de junho de 2020. Olhando (passando em revista) as estatísticas do provedor deste meu blog, percebi que aqui ou nos EUA, alguem havia se detido nesta publicação, então decidi trazê-la de volta e fazer uma releitura.

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