Idoso Contábil

Estou com quase 82 anos de idade, nasci em Niterói-RJ e utilizei cerca de 40 desses anos profissionalmente como programador e analista de sistemas geralmente orientados para aplicação em administrações de uma forma geral. No elenco das pessoas físicas e jurídicas a quem servi, incluíram-se comerciais, industriais, prestadoras de serviço e algumas outras institucionais.

Acabei me especializando e até viciando no uso da contabilidade para o encontro das soluções da vida… da minha vida. Entendam, vivo contabilizando – de forma empática – os valores humanos controversos das pessoas à minha volta em contrapartidas e apurando os resultados (lucros e perdas) … um negócio meio maluco!

Há onze anos, já aposentado vim morar numa ILPI (Instituição de Longa Permanência para Idosos – apenas masculinos) e pude concluir que aqui, os ATIVOS são todas pessoas que se dedicam a cuidar de outras, os PASSIVOS de receberem tais cuidados. Será que entenderam a metáfora?

Nessa minha casa, aqui no Recanto Tarumã em Curitiba-PR, tenho observado neste reduto que enquanto o PASSIVO é todo constituído de descendentes em gênero de ADÃO, no ATIVO figuram, filhas de EVA em expressivo percentual (85 %) todas maestrinas na arte e capacidade de se doar.

É isto mesmo, nós os idosos somos atendidos bem mais (quase exclusivamente) por mulheres. Jovens senhoras e moçoilas de alto, médio e baixo nível de instrução formal, cuidam para que não nos faltem de forma adequada, gestão, supervisão, orientação, terapias, medicações, alimentação, vestuário, higiene, dedicação, carinho e… amor ao próximo.

É extremamente perceptível em cada uma delas o amor pelo que realizam aqui, conosco e para nós “os degredados e já falidos filhos de EVA”. São com as fisionomias tranquilas e serenas que diariamente, ao fim de seus plantões, tornam às suas vidas particulares, gratas a si próprias pelo dever cumprido.

E nós idosos, se bobearmos quedamos imersos nesta Zona de Conforto. Alguns novos e “mais jovens” moradores ao chegar por aqui vêm trazendo consigo a síndrome do ADÃO de todos os tempos = o machismo.

Os “novatos” ao se deparar com as filhas de EVA, se paramentam com as armaduras da truculência, da soberba e da malícia, porém pouco tempo depois, ao perceber que todas essas peças sucumbem afogadas no mar de ternura e indiferença inteligente delas, que os subjuga e os tornam à condição de simples bebês gigantes, transfiguram-se num processo de vitimização onde uma contratura na perna ou uma simples gastrite crônica requerem para si cuidados infinitos.

Contabilizei então um outro fator:  O ímpeto violento da tecnologia de informação sobre todos nós, opera transformações meteóricas no comportamento, nas possibilidades e necessidades de todas as pessoas, de todas as idades e gêneros, de todos os níveis sociais, de todas as regiões geográficas. Observei nesses onze anos, enormes modificações se estabeleceram em torno de nós e no mundo.

O problema é tão impactante que torna uma pessoa de longa idade e vivência — combalido na sua vitalidade pela ação inexorável do tempo e geralmente vítima de atrofias e mutilações até no aspecto cognitivo — impotente e carente de cuidados e atenções, por longo tempo… isso só, justifica a necessidade da existência de ILPIs.

Agora, reunindo um pouco da minha irreverência carioca com um muito da informalidade inadequada para um assunto tão sério, sugiro acompanharmos um trecho da música do Fundo de Quintal, grupo de “pagode” dos anos 80:(solta o som)

Sinal dos tempos, tudo mudado
O que é hoje nem é sombra do passado
Como era lindo todo domingo
Sentar à mesa e aguardar a sobremesa
Ouvindo um papo bem animado
O avô do lado ensinando a tradição
Como era bom, que criação
Tão acabando com essa instituição
 Hoje vovô bate perna
Fazendo baderna governa na Ilha

Mudou bastante
Mas já foi uma família
 E a vovó vejam só
Arrumou um garoto que é uma maravilha
Mudou bastante
Mas já foi uma família
A mãe virou feminista
Virou anarquista, só pensa em guerrilha
Mudou bastante
Mas já foi uma família…

 Irreverências á parte, convenhamos que os vovôs e vovós, já não são figuras vitais em casa, alguns saíram e se transformaram em deputados, senadores e… chefes de quadrilha. Grande parte dos demais idosos sentem-se sós, inúteis. Sabem muita coisa mas, ninguém lhes pergunta nada e então “broxam”, no sentido figurado e “incluem-se fora” do contexto social.

Há que existir constituição e proliferação de ILPIs, não apenas e objetivamente para aqueles ou aquelas que a Sociedade com seus Ministérios Públicos rotulam como em vulnerabilidade social e, sim para todos(as), de todas as classes sociais.

 É hora de fundamentar-se nas projeções estatísticas sobre a população idosa e começar um trabalho de elaboração do como deverão se dividir e classificar as novas futuras Instituições de Longa Permanência de Idosos.

Tudo isso são apenas reflexões de um

…IDOSO CONTÁBIL.