Sêneca…

ALGUMAS DE MINHAS ELUCUBRAÇÕES POR SÔBRE CARTAS DE SÊNECA A LUCILIO…

1  Minha precária condição de saúde tinha me concedido uma trégua prolongada, mas de repente me atacou. “Que tipo de condição?” – dizes. Faz sentido que perguntes isso: até aqui nenhum tipo me é desconhecido. No entanto, é como se eu tivesse sido predestinado a uma só doença, e eu não entendo por que deveria usar seu nome em grego, pois se pode dizer de maneira satisfatória “suspirium”. Ora, o ataque é muito breve e semelhante a uma tempestade, dentro de uma hora quase cessa. Quem pode, afinal, ficar expirando por muito tempo?

2  Todos os males do corpo, que causam incômodos ou que trazem riscos, eu já sofri: nenhum me parece mais molesto. Por que não? Com efeito, adoecer é uma outra coisa; isto é exalar a anima. E, dessa forma, os médicos a chamam de “preparação para a morte”. Eventualmente, essa respiração conseguirá, de fato, o que tantas vezes tentou.

Véi Malandrão3  Pensas que estou animado em te escrever estas coisas porque escapei? Se me alegro com esse desfecho como se estivesse bem de saúde, faço um papel tão ridículo como qualquer um que pensa ter conseguido uma vitória porque adiou uma audiência. Eu, por certo, mesmo durante o sufocamento, não deixei de encontrar conforto em pensamentos felizes e valorosos.

4 “Que é isso?” – eu digo – “Por que tantas vezes a morte faz experimentos comigo? Que faça: tive uma longa experiência com ela”. Tu dizes: “Quando?” Antes que eu nascesse. A morte é não ser. Já sei como é: haverá depois de mim o que houve antes de mim. Se há nessa nossa condição, algum tormento, é inevitável que tenha havido também antes que viéssemos à luz, mas naquela ocasião não sentimos nenhum desconforto.

5  Peço-te que me digas se não é muito estúpido que alguém estime que uma lamparina valha menos depois de apagada do que antes de ser acesa? Nós também somos chamas que se acendem e se apagam: nesse meio-tempo, sofremos um tanto; nos extremos, a tranquilidade é profunda. Meu caro Lucílio, se não estou enganado, é nesse ponto, de fato, que erramos, porque julgamos que a morte é o que vem a seguir, embora ela seja tanto o que veio antes como o que virá a seguir. Tudo o que houve antes de nós é a morte. De fato, que importa que não sejas nem o começo nem o fim, uma vez que o resultado de um e de outro é o não ser?”

6 Por meio destas e de outras exortações da mesma lavra (silenciosas, diga-se, pois não era momento para palavras), continuei dirigindo-me a mim mesmo. Em seguida, pouco a pouco, aquela asma, que já passava a ser uma respiração difícil, ganhou intervalos maiores e se conteve. Embora tenha cedido, minha respiração se mantém ainda sem fluir naturalmente; sinto certa hesitação e morosidade. Seja como for, desde que eu não seja um asmático do espírito.

7  Entende isto da minha parte: não tremerei na hora derradeira, já estou preparado, nada planejo para um dia inteiro. Louva e imita o homem que não reluta em morrer, embora aprecie viver. É preciso ter coragem para partir quando se vai ser expulso? Aqui também é preciso coragem: estou efetivamente sendo expulso, mas é como se eu estivesse saindo. E justamente por isso um sábio nunca é expulso, porque ser expulso é ser enxotado de um lugar contrariado: o sábio nada faz contrariado, ele escapa ao inevitável porque deseja o que está para lhe ser imposto.”

8  A todos, com razão, eu pareceria demente se, enquanto velhos e mulheres recolhessem pedras para a defesa dos muros, enquanto a juventude armada dentro dos portões esperasse ou cobrasse o sinal para atacar, enquanto dardos inimigos vibrassem nos portões e o próprio solo tremesse com escavações e perfurações, me sentasse ocioso, pondo questiúnculas deste tipo: “O que tu não perdeste, tens. Ora, não perdeste chifres, logo, tens chifres”. 

  1. O_pensador_de_rodinBem, é igualmente legítimo quer eu pareça demente se me dedicar a essas coisas. E agora me encontro sitiado. Contudo, fosse, então, iminente uma ameaça externa contra mim, sob sitio, um muro me separaria do inimigo. Agora está comigo o que causa a morte. Não tenho tempo para essas tolices, tenho um grande problema em mãos. O que posso fazer? A morte me persegue, a vida me escapa.

10  Ensina-me a enfrentar isto. Faz que eu não fuja da morte, que a vida não fuja de mim. Exorta-me a enfrentar as dificuldades, a enfrentar o inevitável. Diminui minhas angústias quanto ao tempo: ensina-me que o bem da vida não está na sua duração, mas no seu proveito; que pode acontecer – e acontece frequentemente – de ter vivido pouco alguém que teve vida longa. Quando eu estiver prestes a dormir, diz-me: “Pode ser que não acordes”. Diz-me, já acordado: “Pode ser que não durmas mais”. Diz-me quando eu estiver saindo: “Pode ser que não regresses”. Diz-me quando eu estiver voltando: “Pode ser que não saias de novo”.

11  Erras se pensas que apenas na viagem marítima a distância entre a vida e a morte é mínima: em todo lugar é igualmente tênue esse intervalo. Não é que em toda parte a morte se revela assim tão próxima, é que ela está assim tão próxima em toda parte. Dissipa estas trevas, e com mais facilidade transmitirás a mim as coisas para as quais me preparei. A natureza nos fez aprendizes e deu-nos a razão, imperfeita, mas que pode ser aperfeiçoada.

12  Debate comigo sobre a justiça, a piedade, a frugalidade, ambas as formas de pudor, tanto aquela que é a abstinência do corpo do outro como a que é o cuidado com o próprio corpo. Se evitares conduzir-me por desvios, chegarei mais facilmente aonde quero, pois, como afirma o conhecido tragediógrafo, “é simples a linguagem da verdade”, e, por isso mesmo, não cabe complicá-la. De fato, nada convém menos a espíritos que se embatem em grandes conquistas do que a esperteza enganosa.

C est fini