Terceira idade

No início de janeiro de 2009, colhi do jornal GAZETA DO POVO, esta matéria que julguei bem interessante considerar, para meu próprio julgamento…

GERONTOMAGIA

Velhas palavras podem ser usadas para designar situações novas, mas também é possível compor novas palavras para identificar novidades. Essa é a ideia com a palavra que encima o texto: dizer que há algo de mágico na maturidade. É certo, envelhecer não equivale necessariamente a amadurecer.

É possível envilecer ao longo do tempo, isto é, acentuar a vilania. Porém, a regra é que o envelhecimento do corpo seja acompanhado pela maturação da mente que passa a ser mais reflexiva e menos reativa. Essa combinação é a senectude, não no sentido de decrepitude, mas de apogeu da vida.

O fato novo é o impressionante aumento da média de vida de populações inteiras. Até meados do século XX os velhos tinham quarenta anos e a morte aos cinquenta era rotineira. A velhice precoce, estorvada por uma série de doenças, não permitia a maturação das ideias de grandes grupos de pessoas.

Num mundo de jovens, se apreciavam apenas os encantos juvenis: vigor físico, impetuosidade, arrojo. É certo, só se conhecia a velhice feia, sedentária, chocha, sem glamour. Cadeira de balanço, tricô e dominó compunham a tríade semiótica da terceira idade.

A intensidade do contraste marcou a cultura de gerações consecutivas e a atribuição do valor positivo à juventude e negativo à senectude se tornou pré-lógica, quase como se fossem apresentados pêsames antecipados a quem cruzava os 40 anos de idade.

As quatro décadas não eram um divisor etário, uma meia-idade verdadeira. Eram o penúltimo ponto antes do fim da linha. Assim, os quarentões se auto-compungiam com a sensação de que a viagem estava no fim e não valia a pena inventar atividades físicas e intelectuais diante da iminência da morte.

Essa moldura cultural ainda existe e condiciona o pensamento social, mas é colidente com o fato estatístico do alongamento do período de vida com boa qualidade. Para apreciar o período mais longo da vida é preciso romper com esse preconceito.

Infância, adolescência, juventude, senectude. A vida em quatro atos. O último é extenso demais para ser mal encenado. Urge vivê-lo efusivamente, com emoções e intelecção aceleradas.

A atividade gerativa de riqueza (não necessariamente trabalho estafante) tem altíssimo valor para a pessoa que age e para a sociedade que colhe frutos pela saúde de seus membros e pelos valores que eles criam.

Pode-se fazer cômputo aproximativo, não exato, sobre o efeito da vida longa no acúmulo de conhecimento individual e coletivo. As facilidades tecnológicas que marcam a nossa rotina são fruto do somatório e síntese do conhecimento adquirido por gerações.Se uma pessoa mantiver atividade intelectual por um século, poderá elaborar e refinar ideias em quantidade e qualidade ainda não aferidas.

Basta imaginar milhões de idosos pensando, estudando, oferecendo os bens culturais que amealharam no curso das décadas, para perceber o salto geométrico do estoque de capital humano que a senectude pode trazer.

Quando as atividades produtivas exigiam vigor físico, a velhice era um problema econômico. Atualmente as máquinas podem fazer o trabalho pesado e as pessoas idosas têm espaço para atuar na produção de bens e serviços, aplicando o extenso aprendizado emocional e intelectual que a senectude trouxe.

A velhice é um valor positivo, não negativo.

Enunciar essas ideias menos de duas semanas após o Natal – barba branca, barriga saliente – soa como uma tola ode ao fato consumado e irreversível da queda dos músculos diante da força da gravidade.

Ora, a lamúria faz a pessoa passar a vida com os olhos no espelho retrovisor. Trinta, quarenta anos olhando para trás é tempo demais para um não-viver.

Friedmann Wendpap é juiz federal e professor de Direito da UTP.